Terminam nesta terça-feira (7) as audiências do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) de uma investigação contra o Brasil sobre supostas práticas danosas à relação bilateral entre os países.
O agronegócio marcou presença na segunda-feira (6), o primeiro dia de discussões, conduzindo falas de tom mais técnico e poucas críticas ao Brasil, com uma narrativa profunda e até uma defesa por parte dos pares norte-americanos sinalizando menor tensão entre o setor privado, apurou o CNN Agro.
Paulo Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), que acompanhou os painéis do primeiro dia, relatou que as discussões tiveram um “nível técnico mais elevado e menos perguntas capciosas”, o que torna o diálogo “mais seguro junto à autoridade americana”.
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2026-07-07 06:00:00Nesta terça, estarão presentes, além do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), representantes do setor industrial brasileiro.
Participantes e porta-vozes de entidades que participarão da audiência relataram ao CNN Money que a defesa ao comércio exterior do Brasil vai passar por, além de contestar a validade da investigação, uma ênfase à complementaridade que há entre os negócios brasileiros e norte-americanos e a longa tradição que embasa o relacionamento entres exportadores daqui e compradores de lá.
Complementaridade
O ponto levantado é que a produção brasileira complementa a demanda dos EUA, suprindo a necessidade do que não é produzido lá, de modo que o produto tupiniquim não compete com o yankee, explicam à reportagem Pupo e Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais), entidade filiada à Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais).
Ambas as entidades enviaram representantes para defender o Brasil na audiência do USTR nesta terça.
Desse modo, o impacto não será sentido só pela indústria brasileira, mas também pelo consumidor norte-americano. Um exemplo está no setor de calçados brasileiro, quem tem nos EUA seu principal cliente, uma vez que não têm produção suficiente e precisa de fornecedores externos.
Segundo fonte do setor, que será representado pela Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) nesta terça, o que vai acontecer é que a China vai ganhar ainda mais espaço no mercado dos EUA e o Brasil vai sair prejudicado.
A interdependência entre as partes também é reforçada por Patricia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), entidade que também estará na reunião do USTR.
Ela ressalta que 82% dos negócios do setor ocorrem entre empresas relacionadas do mesmo grupo, de modo que aquilo que afeta um lado, impacta do outro também.
“O comércio é complementar, tem uma cadeia produtiva integrada. Então, qualquer efeito sobre ela promove desorganização e prejuízo para os dois lados”, explica.
Tradição
Fausto Cançado fala em “tradição” quando trata da relação de negócios entre brasileiros e norte-americanos.
No caso do setor que representa, é o Brasil que fornece o ferro-gusa que serve de matéria-prima para o aço, o produto de valor agregado que é fabricado nos EUA.
Os EUA têm uma produção de ferro-gusa que supre 6% de sua demanda, enquanto as exportações brasileiras para lá superaram 60% do consumo deles, segundo o presidente do Sindifer.
Desse modo, a aplicação de uma nova tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros vai encarecer os produtos para o consumidor norte-americano, caso o importador não desenvolva novos mercados, relembra Paulo Pupo.
O representante da indústria madereira aponta que há um consenso entre produtores e compradores de que não faz sentido taxar os produtos brasileiros, considerando “a relação comercial consolidada há muitas décadas” entre as partes.
O insumo brasileiro “é um produto difícil de substituir”, enfatiza Patricia Gomes, apontando para um impacto em todo o setor produtivo norte-americano – desde a indústria e a agricultura até a energia e infraestrutura.