Presidenciáveis prometem investir em infraestrutura, mas desafio é execução
Em artigo à CNN Infra, Marcos Borin comenta que Brasil precisa ampliar os investimentos e acelerar a modernização de sua infraestrutura

A infraestrutura ganhou espaço nas propostas dos candidatos à Presidência neste segundo turno e os caminhos apresentados são os mais diferentes possíveis, passando por maior participação do capital privado, continuidade dos investimentos públicos, concessões, PPPs e novos mecanismos de financiamento.
Mas existe uma convergência importante, que é urgente no país: o Brasil precisa ampliar os investimentos e acelerar a modernização de sua infraestrutura.
A dimensão do desafio, porém, talvez peça uma discussão que vá além de quanto o próximo governo pretende investir. No fim de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o Ministério dos Transportes anunciaram para 2026 uma carteira de oito leilões ferroviários e 13 rodoviários, com previsão de quase R$ 290 bilhões em investimentos.
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2026-10-22 13:37:08É uma carteira que ajuda a mostrar o tamanho da demanda, e também da oportunidade, existente no país. Diante dessa escala, a pergunta para o próximo ciclo presidencial não deveria ser apenas ‘quanto mais vamos investir?’, mas principalmente ‘como vamos executar’.
Uma carteira bilionária, por si só, ainda não é infraestrutura. Entre o anúncio de um investimento e uma rodovia, ferrovia, porto ou outro ativo funcionando existe uma extensa cadeia de planejamento e execução: estudos de viabilidade, projetos de engenharia, licenciamento ambiental, modelagem econômico-financeira, segurança regulatória, contratação, mobilização de mão de obra e fornecedores e, finalmente, construção.
O principal desafio está em fazer com que todas essas etapas avancem de forma coordenada e com o nível de maturidade necessário.
Acelerar a infraestrutura não significa simplesmente encurtar prazos, mas investir na qualidade do planejamento e na integração entre poder público, órgãos reguladores, investidores, projetistas e empresas responsáveis pela execução. A esse cenário somam-se novos fatores de complexidade, como a implementação da reforma tributária e a mudança na jornada de trabalho, com o fim da escala 6x1.
Ambas as transformações podem pressionar os custos, exigir revisões nos modelos de contratação e alterar a organização operacional dos empreendimentos, com reflexos sobre orçamentos, cronogramas e produtividade.
Por isso, o debate eleitoral sobre infraestrutura precisa incorporar uma variável que nem sempre recebe a mesma atenção que os números de investimentos, frequentemente anunciados com grande ênfase: a maturidade dos projetos e sua capacidade de responder a um ambiente econômico, regulatório e trabalhista em transformação.
Os presidenciáveis apresentaram diferentes propostas para ampliar a capacidade de investimento do país. Há planos que enfatizam concessões e participação privada, outros que atribuem maior protagonismo ao investimento público e propostas que combinam diferentes instrumentos.
Independentemente do modelo escolhido nas urnas, entretanto, todos eles enfrentarão uma realidade comum: dinheiro disponível não elimina gargalos de execução.
É possível ter recursos e não ter um projeto suficientemente maduro. É possível estruturar uma concessão e enfrentar entraves posteriores.
Essa talvez seja uma das discussões mais importantes para o próximo ciclo de infraestrutura brasileiro. O país não parte do zero a cada eleição. Governos recebem carteiras de projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, contratos em andamento e empreendimentos que atravessam mais de um mandato.
A infraestrutura trabalha com horizontes maiores do que os ciclos eleitorais e isso, por sua vez, exige continuidade, previsibilidade e capacidade de priorização.
O Brasil ainda possui necessidades enormes em logística, saneamento, mobilidade, energia e infraestrutura digital. Investir mais continuará sendo fundamental para elevar a produtividade e sustentar novos ciclos de crescimento. Mas talvez o próximo salto da infraestrutura brasileira dependa tanto da qualidade da execução quanto da quantidade de recursos mobilizados.
Bilhões previstos demonstram ambição, enquanto projetos bem estruturados atraem capital e obras concluídas geram produtividade.
Por isso, diante das propostas apresentadas pelos presidenciáveis, a discussão para 2027 deveria avançar em uma etapa: não basta definir quanto o Brasil pretende investir em infraestrutura, precisamos definir como transformar esses investimentos em projetos maduros, obras executadas e ativos efetivamente entregues à sociedade.
Marcos Borin é fundador e presidente da CTC Infra*