Por que o futuro da logística brasileira depende do invisível

Em artigo à CNN Infra, Rafael Orsi explica desafio que vai além da infraestrutura no setor de transportes

Por que o futuro da logística brasileira depende do invisível
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Por que o futuro da logística brasileira depende do invisível

Em artigo à CNN Infra, Rafael Orsi explica desafio que vai além da infraestrutura no setor de transportes

*Rafael Orsi

Quando se fala em inovação na logística, o imaginário costuma apontar para caminhões autônomos, drones e inteligência artificial. Mas, no Brasil, o maior ganho de eficiência está muito longe dos holofotes: ele acontece no back office fiscal. É ali, na automação de processos fiscais e documentais, que a tecnologia vem produzindo os impactos mais relevantes sobre produtividade, custos e competitividade.

Historicamente, o setor de transportes no Brasil enfrenta um desafio que vai além da infraestrutura viária precária ou do custo do combustível. Trata-se de um gargalo estrutural alimentado por um retrabalho silencioso. Equipes inteiras de operações, finanças e compliance veem sua capacidade estratégica ser consumida pela conferência manual de documentos, correção de inconsistências cadastrais e tratativas urgentes para liberar caminhões retidos em barreiras estaduais. Essa sobrecarga de processos repetitivos atua como um freio invisível sobre a produtividade, espremendo margens e gerando ineficiência sistêmica.

A razão para esse fenômeno está na assimetria do risco fiscal brasileiro. No transporte de cargas, o erro tributário ou documental custa caro e costuma ser descoberto tarde demais. Uma inconsistência em um Conhecimento de Transporte Eletrônico (CT-e) ou em um Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e) raramente emite um alerta imediato no momento em que o caminhão carrega no pátio. O impacto surge semanas ou meses depois, na forma de créditos negados, paralisações operacionais e autuações fiscais severas. Submetido a volumes massivos de dados, o erro humano torna-se inevitável, e a conta para as empresas, inevitavelmente alta.

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É no combate a esse ralo financeiro que se encontra o maior retorno sobre o investimento (ROI) da tecnologia no setor. Ao aplicar inteligência de dados e automação no back office fiscal, é possível atuar de forma preventiva, antes mesmo da emissão dos documentos. O sistema cruza regras tributárias e históricos operacionais em um volume inviável para equipes humanas, identificando e corrigindo o desvio antes que a mercadoria saia da doca. Hoje já existem tecnologias capazes de fazer o monitoramento de operações reais que automatizam essa camada burocrática, revelando uma redução significativa no tempo de liberação de cargas, acompanhada por uma queda de quase 60% no esforço operacional manual. A tecnologia de retaguarda deixa de ser um custo administrativo para se tornar um motor de liquidez e velocidade.

A urgência dessa virada tecnológica ganha contornos ainda mais críticos com o avanço da Reforma Tributária. A introdução do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e, sobretudo, do mecanismo de split payment, que recolhe tributos automaticamente no momento da liquidação financeira, transformará a rotina do setor. A velocidade de adaptação exigida por esse novo ecossistema ultrapassa definitivamente a capacidade de atualização manual das empresas.

Nesse novo ambiente regulatório, a arquitetura de software precisa absorver as mudanças de forma nativa. O sistema deve atualizar suas regras na engenharia de código em tempo real, sem gerar gargalos de processamento ou interromper a expedição dos produtos. Contudo, cabe um alerta: a tecnologia não pode ser tratada como um piloto automático isento de governança.

A automação funciona como uma camada robusta de defesa, mas não substitui a gestão estratégica nem corrige processos internos defeituosos. Sem disciplina e saneamento básico de dados, a tecnologia apenas acelera a ocorrência de erros. Por isso, a escolha das lideranças logísticas tem migrado da simples presença de algoritmos para a exigência de rastreabilidade e explicabilidade. A ferramenta precisa ser transparente e capaz de justificar por que aprovou ou recusou determinado documento perante o Fisco.

Essa mudança de postura estabelece uma divisão clara no mercado. Softwares que atuam apenas como repositórios passivos de dados caminham para a obsolescência, limitando-se a competir por preço. Em contrapartida, ganham espaço os ecossistemas preditivos desenvolvidos com profundidade vertical. No transporte brasileiro, lidar com as exigências específicas da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), da Guia Nacional de Recolhimento de Tributos Estaduais (GNRE) e do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) exige especialização. Plataformas genéricas simplesmente falham diante da complexidade local.

À medida que o mercado avança para um ambiente de negócios mais dinâmico e fiscalmente rigoroso, fica evidente que a competitividade das empresas não será medida pela adoção de inovações puramente estéticas. A verdadeira transformação digital é aquela que elimina atritos invisíveis e transforma a complexidade burocrática em um fluxo contínuo de produtividade. Na logística brasileira, a tecnologia que de fato gera valor sustentável não é a que se propõe a dirigir o caminhão, mas a que garante que ele não fique parado no pátio por um erro de papelada.

*Rafael Orsi é Head de Produto da Emiteaí.

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião .


Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/por-que-o-futuro-da-logistica-brasileira-depende-do-invisivel/