Por que bons projetos, sozinhos, não atraem investidores?
Em artigo à CNN Infra, Jorge Sant’Anna explica por que bons projetos não bastam para atrair capital e como garantias e previsibilidade ajudam a reduzir riscos para investidores
Um bom projeto de infraestrutura precisa fazer sentido econômico, mas isso, por si só, não garante que haverá investidores dispostos a financiá-lo. Quem compromete capital em um empreendimento de longo prazo não analisa apenas a demanda esperada, a taxa de retorno ou a importância estratégica da obra. Também quer saber se o projeto será concluído no prazo, dentro das condições previstas e com capacidade de gerar a receita projetada.
Essa preocupação se tornou ainda mais relevante no Brasil. Em 2025, a iniciativa privada respondeu por 84% dos investimentos em infraestrutura, dentro de um volume total de cerca de R$ 280 bilhões. Ao mesmo tempo, o país ainda convive com um hiato estimado em aproximadamente R$ 218 bilhões por ano. O dado mostra que precisamos de mais capital privado, mas também de melhores condições para atraí-lo e mantê-lo nos projetos ao longo do tempo.
Infraestrutura reúne características que tornam essa decisão mais complexa. São investimentos de longo prazo, com desembolsos elevados antes do início da geração de receita e exposição a atrasos, aumento de custos, problemas técnicos ou dificuldades financeiras do contratado. Em estruturas de project finance, essa questão é ainda mais sensível, porque o financiamento se apoia justamente nos fluxos de caixa futuros do próprio empreendimento. Se a obra não termina, termina tarde ou opera abaixo do previsto, o problema deixa de ser apenas operacional e passa a afetar diretamente a lógica financeira do investimento.
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2026-08-28 20:47:59Por isso, previsibilidade tem valor econômico. Ela começa com bons projetos, contratos equilibrados, matrizes de risco adequadas e segurança jurídica, mas também depende de mecanismos capazes de mitigar o risco de execução. Quanto maior a clareza sobre quem responde por cada risco e sobre o que acontece quando algo sai do previsto, melhores são as condições para que investidores e financiadores avaliem a operação.
É nesse ponto que o seguro garantia, especialmente na modalidade performance bond, pode contribuir. O instrumento busca assegurar o cumprimento das obrigações assumidas pelo contratado e, dependendo da estrutura prevista, pode oferecer alternativas de indenização ou continuidade da obra em caso de inadimplemento. Sua contribuição, no entanto, não começa apenas quando surge um problema: antes da emissão da garantia, a seguradora analisa aspectos como a capacidade financeira e operacional do contratado, seu histórico, o cronograma, o contrato e as condições técnicas do empreendimento.
Essa análise adiciona uma camada independente de avaliação ao projeto. Não elimina as incertezas, mas ajuda a torná-las mais visíveis, distribuí-las de forma mais clara e criar melhores condições para que sejam administradas. Para quem financia infraestrutura, essa previsibilidade pode ser determinante, porque reduz a distância entre um projeto economicamente atrativo e um projeto efetivamente financiável.
O seguro garantia também não substitui planejamento, boa engenharia, governança ou segurança regulatória, nem transforma um projeto mal concebido em uma boa oportunidade de investimento. Seu papel é complementar uma estrutura que já precisa nascer consistente e reforçar a confiança de que os riscos de execução foram considerados desde o início.
Vejo que esse debate será cada vez mais importante para o Brasil. O país já demonstrou capacidade de mobilizar capital privado para infraestrutura, mas o próximo passo é ampliar essa participação com estruturas que ofereçam maior previsibilidade ao investidor. Bons projetos continuam sendo indispensáveis, mas, sozinhos, não bastam. Para o capital chegar, é preciso também confiança na capacidade de execução, na qualidade das garantias e na forma como os riscos serão tratados até que o empreendimento esteja de fato em operação.
*Jorge Sant’Anna é diretor da Daycoval Seguros