Ouvir menos pode estar deixando você mais lento ao caminhar
Segundo a otorrinolaringologista Dra. Adriana Gonzaga Chaves, a audição influencia mais do que você imagina: ela afeta orientação, equilíbrio e até a velocidade do seu passo, especialmente com o avanço da idade
Ao longo da minha experiência acompanhando pacientes, aprendi que o corpo costuma nos enviar sinais muito antes de uma doença se tornar evidente. Nem sempre esses sinais aparecem como dor ou limitação.
Às vezes, eles se revelam em pequenas mudanças da rotina, como a caminhada que perdeu o ritmo, o receio de subir uma escada, maior propensão a tropeços ou a necessidade de prestar mais atenção aos sons ao redor.
O que a audição tem a ver com caminhar
Por muito tempo, quando alguém começava a ouvir menos, a preocupação se resumia à intensidade do som, à dificuldade para compreender conversas, à necessidade de aumentar o volume da televisão e ao pedido para que as outras pessoas repetissem o que haviam dito anteriormente. Hoje, sabemos que a audição participa de um conjunto muito mais complexo de funções, que sustentam nossa autonomia ao longo da vida. Ouvir também é uma forma de se orientar no espaço, manter o equilíbrio, perceber o ambiente e caminhar com segurança.
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À primeira vista, essa relação pode parecer curiosa. Afinal, o que os ouvidos têm a ver com a maneira como caminhamos? Na prática, muito mais do que imaginamos. A porção mais profunda dos ouvidos é conhecida como ouvido interno; ela abriga dois sistemas sensoriais: a cóclea (responsável pela audição) e o labirinto (responsável pelo equilíbrio e pela percepção da posição do corpo no espaço). Esses dois sistemas estão anatômica e fisiologicamente integrados. Dessa forma, o sentido da audição, por meio da percepção do som dos nossos próprios passos, da aproximação de outras pessoas, do trânsito e dos inúmeros sons ambientais, informa e nos orienta constantemente, ajudando o cérebro a “construir” um mapa espacial enquanto caminhamos.
Quando a audição diminui, esse processamento torna-se mais difícil. O cérebro passa a dedicar mais energia para interpretar sons e compreender a fala (termo conhecido em inglês como listening effort), causando fadiga mental e reduzindo os recursos disponíveis para outras funções, como atenção, equilíbrio e coordenação motora.
Velocidade da caminhada: um sinal de saúde global
Atualmente, a velocidade de caminhada deixou de ser apenas uma característica física e passou a ser considerada um valioso indicador de saúde global. Diversos estudos mostram que ela reflete a integração entre os sistemas cardiovascular, neurológico, muscular e respiratório. Uma redução progressiva dessa velocidade pode indicar uma dificuldade para manter a postura e o equilíbrio ao ficar em pé, aumentando o risco de quedas e fraturas, impactando diretamente a capacidade funcional do indivíduo e, consequentemente, elevando o risco de hospitalizações e reduzindo a expectativa de vida.
Nesse contexto, a perda auditiva deixa de ser apenas uma questão de ouvir menos e passa a fazer parte de uma cadeia de eventos que pode comprometer a independência ao longo dos anos. A perda auditiva não tratada está associada a maior risco de isolamento social, ansiedade, depressão, declínio cognitivo e demência. Embora esses fenômenos tenham causas multifatoriais, acredita-se que o esforço contínuo para compreender sons, aliado à redução das interações sociais, contribua para acelerar o envelhecimento funcional.
Por que diagnosticar cedo faz diferença
O diagnóstico precoce continua sendo uma das ferramentas mais importantes para preservar a qualidade de vida. Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que ouvir menos faz parte do envelhecimento e, por isso, adiam por anos uma avaliação especializada. Diagnosticar cedo permite adotar medidas de proteção, controlar fatores ambientais, como exposição a ruídos e tabagismo, monitorar doenças associadas e o uso de medicamentos, além de garantir acompanhamento especializado e, quando necessário, indicar o uso de aparelhos auditivos ou outras estratégias de reabilitação auditiva.
Talvez uma das maiores contribuições da medicina seja justamente ampliar nossa compreensão sobre como os diferentes sistemas do corpo estão conectados. O ouvido não existe isoladamente – assim como o cérebro, os músculos ou o coração. Quando cuidamos da audição, muitas vezes estamos protegendo mais do que a capacidade de escutar: estamos preservando equilíbrio, mobilidade, independência e a possibilidade de continuar caminhando pela vida com segurança, confiança e autonomia.
*texto escrito por Dra. Adriana Gonzaga Chaves (CRM 102611-SP RQE 20726), Médica Otorrinolaringologista do Fleury