Transformar um pequeno negócio em uma empresa de alto impacto não depende apenas de encontrar investidores ou contratar uma grande equipe. A jornada começa muito antes, com a capacidade de entender o mercado, testar uma solução, construir um time alinhado e tomar decisões de crescimento no momento certo.
Essa foi a trajetória vivida por Daniella Mello, CMO da Endeavor Brasil. Empreendedora antes de atuar na organização, ela fundou a Cheftime, empresa de kits gastronômicos que começou na cozinha de sua própria casa e posteriormente foi vendida ao GPA (Grupo Pão de Açúcar).
Hoje, além de liderar áreas de comunicação, rede e comunidade da Endeavor, atua como investidora-anjo e mentora de empreendedores.
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Para ela, não existe uma fórmula única para transformar uma pequena empresa em um negócio de grande impacto. Há, porém, desafios que aparecem em diferentes estágios da jornada. Na Endeavor, esses desafios são organizados em quatro grandes alavancas: talentos, capital, crescimento (incluindo produto, entrada no mercado e expansão internacional), além de desafios pessoais do empreendedor.
1. Comece entendendo o problema
Para quem está começando, uma das primeiras prioridades é encontrar o chamado product-market fit, ou seja, comprovar que existe uma demanda real pelo produto ou serviço oferecido. O empreendedor precisa entender se sua solução realmente resolve um problema e se há clientes dispostos a pagar por ela.
Na etapa seguinte, entram questões mais sofisticadas, como a formação de um time capaz de conduzir o negócio, a compreensão dos sobre a rentabilidade e a estrutura de custos e receitas do negócio.
Só depois disso fica mais claro qual crescimento a empresa pode buscar, qual equipe será necessária e quanto capital será necessário para alcançar essa ambição. A lógica é simples: cada etapa do negócio determina o tipo de estrutura necessária para chegar à próxima.
2. Sonhe grande, mas construa de forma enxuta
Uma das principais mudanças trazidas pela inteligência artificial é a redução do custo necessário para colocar uma empresa no mercado. Ferramentas de IA já podem apoiar atividades como programação, atendimento, vendas, marketing, análise de dados, produção de conteúdo, pesquisa e operações.
Isso permite que empreendedores permaneçam mais tempo concentrados na construção da empresa antes de precisarem dedicar uma parcela significativa de seu tempo à captação de recursos.
Para quem está começando, a consequência é importante: não é preciso esperar ter uma estrutura grande para começar a construir algo relevante.
“Sonhem grande desde o primeiro dia”, recomenda Daniella. Segundo ela, o esforço para construir uma empresa de grande porte não é necessariamente tão diferente do necessário para criar uma empresa pequena. O que muda é a ambição e a capacidade de execução.
3. Monte o time pela atitude
Outro desafio comum aos pequenos negócios é formar uma equipe quando ainda há pouco caixa e quase nenhuma estrutura. Nesse momento, contratar errado pode custar caro. Para Daniella, além das competências técnicas, é fundamental avaliar a disposição do profissional para assumir responsabilidades e construir junto com o negócio.
Na sua experiência, ela diz olhar primeiro para a “alma” da pessoa, depois para sua capacidade de entrega e, por último, para o currículo. A razão está na cultura empresarial. Segundo ela, cultura não é apenas uma apresentação institucional ou um conjunto de frases expostas na parede: ela aparece nas decisões e comportamentos cotidianos.
Em empresas menores, essa dimensão pode ser ainda mais decisiva. Cada contratação tem impacto proporcionalmente maior sobre o funcionamento do negócio e sobre a relação entre os integrantes da equipe.
4. Não espere o produto ficar perfeito
Um dos erros mais comuns de quem empreende é adiar o lançamento até que o produto esteja completamente pronto. A recomendação de Daniella é direta, tem que lançar, testar e corrigir rapidamente.
A reação do cliente deve orientar as próximas decisões, em vez do apego do empreendedor à versão original da solução. Essa lógica ficou ainda mais acessível com ferramentas de inteligência artificial e soluções no-code, que permitem testar ideias e construir produtos com menos recursos financeiros e técnicos.
5. Marca é estratégia, mesmo para quem ainda é pequeno
Outro ponto que costuma ficar em segundo plano entre pequenos empreendedores é a construção de marca. Ela não deve ser tratada como algo que só será desenvolvido depois que o negócio crescer.
Ela funciona como uma ferramenta estratégica desde o início. Vai ajudar a deixar clara a missão da empresa, atrair clientes, investidores e profissionais alinhados à cultura do negócio.
Isso não significa necessariamente grandes investimentos em publicidade. Para empresas pequenas, a consistência pode ser mais importante do que campanhas caras. É importante saber o que a empresa representa, para quem ela existe e como comunicar isso ao mercado pode construir valor ao longo do tempo.
6. Aprenda a mudar de rota
Mesmo com planejamento, empresas de alto impacto não seguem necessariamente uma linha reta. A experiência de Daniella com a Cheftime é um exemplo disso. O negócio passou por diferentes formatos até se tornar uma operação, uma dark kitchen e uma marca de gastronomia dentro de um grande grupo.
A lição, segundo ela, é a importância da flexibilidade estratégica. Isso pode significar pivotar o modelo de negócio, mudar o rumo de crescimento ou até aceitar uma aquisição ou integração a uma companhia maior quando essa decisão fizer sentido para o negócio.
Para o empreendedor, desapegar da ideia original pode ser tão importante quanto ter a capacidade de defendê-la.
7. Antes de buscar dinheiro, entenda o custo da captação
Levantar investimento costuma ser visto como um marco de sucesso, mas o processo pode consumir uma parcela significativa do tempo do fundador. Segundo Daniella, uma captação estruturada pode exigir pelo menos 25% do tempo do empreendedor e também envolve uma dimensão relacional.
O investidor também está calculando riscos. Para o empreendedor, isso significa deixar de olhar apenas para a própria necessidade e compreender quais são os interesses, riscos e critérios de quem está colocando dinheiro no negócio.
E captar não é necessariamente o único caminho. O bootstrapping, modelo em que a empresa cresce principalmente com recursos próprios e geração de receita, também pode ser uma alternativa. Investimentos externos trazem capital e possibilidades de aceleração, mas também podem significar entrada de novos sócios e compromissos contratuais que precisam ser avaliados.
A inteligência artificial reforça essa possibilidade ao diminuir o capital necessário para algumas operações. O resultado é um cenário em que algumas empresas conseguem crescer sem depender imediatamente de venture capital, enquanto os investidores concentram recursos em um número menor de companhias consideradas altamente promissoras.
A construção de uma empresa de alto impacto não acontece em um único salto. É resultado de uma sequência de decisões: validar o produto, compreender a economia do negócio, montar um time forte, testar rapidamente, construir uma marca, escolher o momento certo para buscar capital e adaptar a estratégia conforme o mercado muda.
Em todas essas etapas, o empreendedor também precisa desenvolver características pessoais como criatividade, resiliência e foco. Mais do que buscar uma receita pronta, a recomendação é aprender com experiências anteriores e construir o próprio caminho. No fim, negócios podem começar pequenos, mas a ambição não precisa ser.