Oriente Médio é calcanhar de Aquiles dos EUA, avalia professor
Alexandre Coelho avalia que, seis meses após o início da guerra contra o Irã, os EUA não obtiveram vitória estratégica e enfrentam desgaste crescente
A guerra no Oriente Médio completou seis meses sem perspectiva clara de encerramento. O conflito, iniciado com ataques dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro de 2026, transformou-se em uma guerra de desgaste que afeta não apenas as partes diretamente envolvidas, mas também aliados históricos de Washington ao redor do mundo.
Em entrevista ao CNN AGORA, Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), avaliou o cenário atual e as perspectivas para o conflito. Segundo ele, até o momento, nenhum dos lados pode ser considerado vencedor.
Perdas estratégicas para todos os lados
Para Alexandre Coelho, tanto os Estados Unidos quanto Israel e o Irã acumularam perdas expressivas ao longo dos seis meses de conflito. "Nós poderíamos dizer que até agora, tanto Israel, tanto Estados Unidos quanto o Irã têm demonstrado que perderam, praticamente perderam a guerra até aqui", afirmou. No caso americano, o professor destacou que, embora tenham ocorrido vitórias táticas, não houve avanço estratégico concreto. Já a população civil iraniana enfrenta uma economia "mais do que devastada", com inflação sobre a moeda local e perdas nas exportações de petróleo.
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2026-08-30 03:00:39O professor ressalvou, no entanto, que do ponto de vista estritamente estratégico, o regime iraniano seria, por enquanto, o lado que estaria levando alguma vantagem no conflito. Um dos fatores que contribui para isso é o bloqueio do Estreito de Ormuz imposto pelo Irã, que gerou um grave problema geoeconômico para os americanos. "Os Estados Unidos, até o momento, simplesmente não conseguiu atingir os seus objetivos militares ou de guerra", declarou Coelho.
Aliados históricos se afastam dos EUA
Alexandre Coelho também chamou atenção para o impacto do conflito sobre os aliados tradicionais de Washington. Países do Golfo Pérsico, como Kuwait e Arábia Saudita, passaram a questionar a confiabilidade do chamado "guarda-chuva protetor" americano após sofrerem ataques iranianos em retaliação às ofensivas dos Estados Unidos. Segundo o professor, esse cenário teria acelerado a formação do chamado Acordo de Meca, envolvendo Paquistão, Turquia e Arábia Saudita — embora a Turquia tenha negado essa ligação.
No leste asiático, Japão e Coreia do Sul também demonstram crescente vulnerabilidade. O Japão passou a debater o conteúdo do artigo 9º de sua Constituição, que estabelece um perfil pacifista em relação a questões militares, enquanto a Coreia do Sul enfrenta escassez de munições norte-americanas. Além disso, um porta-aviões que habitualmente operava na região do Pacífico foi deslocado para o Oriente Médio. "O Indo-Pacífico está sendo deixado muito mais vulnerável, enquanto isso o Oriente Médio hoje é, de fato, o calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos", concluiu Coelho.
Impacto interno e sanções econômicas
O professor avaliou ainda os efeitos políticos da guerra dentro dos próprios Estados Unidos. De acordo com Coelho, o conflito contribuiu para o aumento do custo de vida, incluindo a alta no preço da gasolina, impactando negativamente o humor do eleitorado. Ele lembrou que, durante suas campanhas, Donald Trump prometeu encerrar guerras, e não criá-las. "Mais da metade do eleitorado americano é contra essa guerra", afirmou. Com isso, Coelho avaliou que, mantido o cenário atual até novembro, é provável que haja perda de apoio no Congresso americano, com avanço dos democratas.
Sobre a estratégia de sanções econômicas anunciada contra o Irã — incluindo as chamadas sanções secundárias contra países como China e Rússia —, o professor mostrou ceticismo quanto à sua eficácia. Segundo ele, o Irã já demonstrou capacidade de resistência econômica, ainda que de forma dolorosa para sua população civil.
Quanto à China, Coelho alertou para o risco de retaliação por meio do controle das exportações de minerais críticos e terras raras, o que impactaria diretamente a indústria de defesa americana. "Essas sanções econômicas, além de estarem no momento errado, não devem produzir resultados concretos para minimizar ou mitigar essa guerra", concluiu.