Nepal: familiares buscam notícias de estrangeiros desaparecidos em enchente
Em casas nos Estados Unidos, Índia, Canadá e outros países, pessoas aguardam desesperadamente notícias de parentes que estavam na região da tragédia
Quando as águas das enchentes desceram por desfiladeiros montanhosos profundos e invadiram um vale no Nepal na quarta-feira (26), devastaram comunidades já vulneráveis que viviam às margens do rio cheio, onde moram diversos grupos étnicos e agricultores.
Mas o desastre também provocou repercussão em todo o mundo, com centenas de estrangeiros desaparecidos. Em casas nos Estados Unidos, Índia, Canadá e outros países, pessoas aguardam desesperadamente notícias de parentes desaparecidos — entre eles um médico de Delaware, uma mãe neozelandesa de dois filhos e três adolescentes dos Estados Unidos e da Austrália.
A região é popular para turismo, trilhas e peregrinações religiosas a templos e locais sagrados reverenciados por diferentes religiões, o que atrai grande número de visitantes durante o verão e o início do outono. Também abriga diversos projetos hidrelétricos financiados por investidores estrangeiros.
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2026-08-27 07:58:21Centenas de pessoas também estão desaparecidas na vizinha China; o deslizamento inicial ocorreu na fronteira com o Nepal, e uma avalanche de lama atingiu o Porto de Gyirong, importante ponto de passagem terrestre entre os dois países.
As autoridades ainda não divulgaram os nomes dos mortos confirmados ou dos desaparecidos, enquanto as operações de resgate continuavam nesta quinta-feira (27). Mas a dimensão da tragédia já está clara, com as redes sociais repletas de pedidos de ajuda, inclusive da diáspora nepalesa espalhada pelo mundo.
Grupos étnicos e comunidades pobres foram atingidos
As comunidades mais afetadas no Nepal ficam às margens do rio Trishuli, que atravessa vários distritos, incluindo Rasuwa, Nuwakot e Dhading.
Esses distritos abrigam mais de meio milhão de pessoas, segundo dados recentes do censo. Eles reúnem diferentes grupos étnicos, como os povos Tamang, Gurung e Newar, alguns dos quais vivem na região há séculos.
Muitos dependem da agricultura para sobreviver, embora parte da população tenha migrado para atividades ligadas ao turismo, já que a região se tornou cada vez mais popular para trilhas, rafting e turismo religioso. A cada verão, centenas de peregrinos hindus, budistas, jainistas e bonpos passam pela área a caminho do Monte Kailash, no Tibete.
Mas essas comunidades também são altamente vulneráveis. Distritos como Rasuwa apresentam historicamente altos índices de pobreza e estão na linha de frente da crise climática, expostos a desastres como incêndios florestais e deslizamentos de terra.
Muitos moradores passaram anos reconstruindo suas vidas após o terremoto devastador de 2015 no Nepal, que matou mais de 8 mil pessoas. Deslocadas de suas casas, centenas de famílias se instalaram nas áreas baixas às margens do rio Trishuli — apenas para enfrentar mais uma tragédia nesta quarta-feira.
Famílias nepalesas e a diáspora
Famílias em todo o Nepal agora buscam desesperadamente notícias de parentes que estavam nas áreas atingidas, entre eles profissionais de saúde e operadores de turismo.
Asmita Dahal, moradora da capital Katmandu, disse à CNN que sua família está “esperando por um milagre” em relação ao irmão mais novo, Suman Dahal, de 21 anos. Suman trabalha para uma empresa que leva peregrinos ao Monte Kailash e se preparava para retornar a Katmandu vindo de Timure, uma pequena cidade às margens do rio Trishuli.
“Estamos preocupados que o ônibus dele possa ter sido levado pela enchente. Nós simplesmente não sabemos”, disse Asmita. A última coisa que o irmão lhe disse na quarta-feira foi: “Te vejo de manhã”.
O desastre também repercute entre a diáspora nepalesa espalhada pelo mundo, estimada em mais de 2,1 milhões de pessoas, que agora tenta fazer contato com familiares e amigos a milhares de quilômetros de distância.
Pema D. Gurung, dono de um restaurante nepalês em Nova York, afirmou que não sabe se seus muitos amigos em Rasuwa sobreviveram.
“Na minha mente e no meu coração, espero que meus amigos estejam vivos”, disse à CNN. Ele não conseguiu contato porque a enchente interrompeu as comunicações; amigos dele em Katmandu também não conseguiram falar com ninguém na região.
Rojina Dhungana, moradora de Ottawa, no Canadá, acordou na quarta-feira com a notícia de que sua cidade natal, às margens do Trishuli, havia sido destruída pela enchente. Seus pais estão seguros, mas muitos antigos vizinhos e colegas de escola estão desaparecidos.
Nas redes sociais, “todo mundo que eu conhecia — meus amigos, meus parentes, minha comunidade — estava pedindo ajuda: ‘Essa pessoa está desaparecida!’”, relatou.
Estrangeiros desaparecidos
Pelo menos 700 estrangeiros estão entre os desaparecidos, segundo o Conselho de Turismo do país e as autoridades chinesas.
Entre eles estão ao menos 178 indianos, muitos em peregrinação ao Monte Kailash. Também há americanos, ucranianos, malaios, australianos, britânicos, canadenses e pessoas de mais de duas dezenas de outros países.
Do lado chinês da fronteira, pelo menos 260 estrangeiros estão entre os nomes mapeados, segundo a mídia estatal.
Muitos dos desaparecidos eram turistas — incluindo adolescentes. Uma menina americana de 14 anos e dois meninos australianos de 12 e 14 anos faziam parte de um grupo turístico que segue desaparecido, de acordo com a empresa responsável pela viagem.
A americana Radhika Sharma afirmou que seus pais, Ramesh e Neelam Sharma, estavam em uma peregrinação religiosa. A empresa de turismo fez o último contato com o grupo na manhã de quarta-feira, após eles chegarem à fronteira com o Tibete.
Desde então, ela não recebeu mais notícias. Segundo Sharma, estas foram as “piores 24 horas” de sua vida.
Todos os nove sul-coreanos desaparecidos eram trabalhadores enviados ao Nepal para atuar em uma usina hidrelétrica em construção, segundo autoridades da Coreia do Sul. Nos últimos anos, o Nepal tem buscado explorar seu enorme potencial hidrelétrico, frequentemente com investimentos de parceiros regionais como China e Índia.