Morre Gloria Steinem, escritora e ativista feminista americana

Morte foi confirmada pela fundação da escritora em uma publicação no Instagram nesta quinta-feira

Morre Gloria Steinem, escritora e ativista feminista americana
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Morre Gloria Steinem, escritora e ativista feminista americana

Morte foi confirmada pela fundação da escritora em uma publicação no Instagram nesta quinta-feira

A ativista feminista e jornalista Gloria Steinem morreu na quarta-feira (2) aos 92 anos. A morte foi confirmada pela fundação da escritora em uma publicação no Instagram nesta quinta-feira (3).

Steinem foi um ícone feminista que passou a maior parte de um século defendendo os direitos das mulheres no ambiente de trabalho, o direito ao aborto e a educação sexual. Seu nome e seu rosto tornaram-se praticamente sinônimos da luta pelos direitos das mulheres. Ela continuou a defender ativamente o feminismo e outras causas progressistas, como o ativismo antibélico, mesmo após completar 90 anos.

"Gloria Steinem faleceu serenamente em sua casa na cidade de Nova York, cercada por alguns dos muitos que a amavam", diz a publicação. "Os quase cem anos de vida de Gloria foram bem vividos, e ela continuou lutando pela igualdade até o fim."

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"O maior dom de Gloria era sua capacidade de ouvir os outros, de fazê-los se sentirem vistos e ouvidos. Suas palavras, ações e exemplo deram às pessoas permissão para serem elas mesmas. Gloria viveu fiel ao seu espírito independente, sempre com curiosidade e um grande senso de humor", diz a publicação.

Quem foi Gloria Steinem

Gloria Steinem foi escritora, palestrante, ativista e organizadora americana que lutou pela igualdade de gênero e pelos direitos civis e reprodutivos das mulheres por mais de cinco décadas.

Cofundadora e editora consultiva da revista Ms., Steinem foi uma das principais vozes do movimento feminista a partir do fim dos anos 1960 e inspirou gerações de mulheres.

“De porta-voz relutante a um símbolo de mudança positiva, sua trajetória é singular — uma líder americana capaz de falar com todos nós”, disse a diretora de cinema e teatro Julie Taymor sobre Steinem em uma entrevista ao New York Times em 2017.

Taymor dirigiu o filme As Glórias (The Glorias), de 2020, que retrata a vida de Steinem ao longo dos anos e é baseado em sua autobiografia de 2015, My Life on the Road. Ela também foi tema da peça Gloria: A Life, de 2018, e do documentário da HBO Gloria: In Her Own Words, de 2011.

Steinem dizia se considerar uma “empreendedora da mudança social”.

“Quero fazer justiça às mulheres que conheço, contar suas histórias”, disse à revista New Yorker em 2015. “É criar conexões e usar a mim mesma para ouvir, porque não podemos empoderar as mulheres sem ouvir suas histórias.”

Steinem fundou, em 1971, o National Women's Political Caucus com as ex-deputadas americanas Bella Abzug e Shirley Chisholm e a escritora Betty Friedan, cujo livro A Mística Feminina, de 1963, impulsionou a segunda onda do feminismo.

Entre outras organizações, ela também criou a Coalition of Labor Union Women, o Women's Media Center, o Voters for Choice e a Ms. Foundation for Women.

Em 2013, o então presidente Barack Obama concedeu a Steinem a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil dos Estados Unidos.

Com seus longos cabelos loiros repartidos ao meio e óculos de aviador, Steinem se tornou um símbolo glamouroso e moderno do movimento feminista, que, segundo ela, deveria incluir mulheres de todas as raças.

“Se você sofreu discriminação, é sensível a ela em todos os níveis. Aprendi muito sobre feminismo com mulheres negras. As mulheres de cor basicamente inventaram o feminismo”, disse à New Yorker.

“A Bunny's Tale”

Steinem nasceu em 25 de março de 1934, em Toledo, Ohio, a segunda de duas filhas. Seu pai era um comerciante de antiguidades que viajava pelo país. Como a família se mudava com frequência, ela não frequentou a escola regularmente até por volta da sétima série.

Seus pais se separaram quando ela tinha 11 anos. Depois disso, Steinem passou a viver com a mãe e a cuidar dela, após a mulher sofrer um colapso nervoso e enfrentar depressão.

A experiência influenciou a visão de Steinem sobre injustiça social e casamento. Ela acreditava que o matrimônio privava as mulheres de escolhas e de muitos de seus direitos civis.

“Eu já tinha sido a pequena mãe de uma criança muito grande, minha mãe. Não queria acabar cuidando de outra pessoa”, disse ela, segundo relatos.

Depois de se formar no Smith College, Steinem começou a trabalhar como jornalista freelancer.

Em 1963, trabalhou como coelhinha da Playboy por 11 dias para uma reportagem da revista Show. Sua investigação em duas partes, A Bunny's Tale, revelou os baixos salários e o tratamento sexista enfrentados pelas coelhinhas da Playboy, que originalmente trabalhavam como garçonetes. A reportagem virou um filme para a televisão em 1985, estrelado por Kirstie Alley.

Em 1968, Steinem ajudou a fundar a revista New York, onde seu ensaio “After Black Power, Women's Liberation” a consolidou como uma líder feminista em um período de intensas transformações sociais.

Mas foi somente no ano seguinte, ao participar de um encontro em uma igreja de Nova York sobre aborto, que Steinem disse ter começado de fato sua trajetória como ativista feminista. Ela havia feito um aborto ilegal em Londres aos 22 anos.

A revista Ms., que ela cofundou em 1971, abordava o aborto e outras questões como sexismo, igualdade salarial e violência doméstica — uma mudança radical em relação às revistas voltadas às mulheres, que costumavam se concentrar em beleza, culinária e como apoiar o marido.

Uma das primeiras edições publicou os nomes de 52 mulheres, incluindo Steinem, que haviam feito abortos, e defendeu a legalização do procedimento antes da histórica decisão Roe v. Wade, de 1973, que reconheceu por quase meio século o direito constitucional das mulheres ao aborto nos Estados Unidos.

“Essência da revolução feminina”

Steinem frequentemente criticava as limitações do casamento.

“As mulheres não serão iguais fora de casa até que os homens sejam iguais dentro dela”, disse.

Ela não teve filhos e só decidiu se casar aos 66 anos, com o empresário e ambientalista sul-africano David Bale, pai do ator Christian Bale.

“Espero que isso prove o que as feministas sempre disseram: feminismo é ter a capacidade de escolher o que é certo em cada momento de nossas vidas”, afirmou em um comunicado sobre o casamento. David Bale morreu de câncer no cérebro em 2003.

Steinem continuou trabalhando até os 80 anos. Escreveu diversos livros, entre eles Marilyn: Norma Jean, de 1986, sobre Marilyn Monroe, Revolution from Within: A Book of Self-Esteem, sobre desenvolvimento pessoal, além de coletâneas de ensaios.

Ela narrou e teve a ideia de um documentário premiado com o Emmy sobre abuso infantil, Multiple Personalities: The Search for Deadly Memories, produzido pela HBO em 1993, e produziu o filme Better Off Dead, da Lifetime. Também apresentou Woman, uma série documental sobre violência contra mulheres, no canal de televisão Viceland.

A escritora Carolyn Heilbrun, autora da biografia Education of a Woman: The Life of Gloria Steinem, de 1995, descreveu Steinem como “o epítome da beleza feminina e a essência da revolução feminina”.

*Com informações da Reuters



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/morre-gloria-steinem-escritora-e-ativista-feminista-americana/