Os argentinos têm apoiado amplamente a forte oposição do presidente Javier Milei à exploração de petróleo nas proximidades das Ilhas Malvinas, ressaltando a relevância da reivindicação de soberania da Argentina sobre o arquipélago controlado pelos britânicos.
Em um discurso televisionado na quinta-feira (3), Milei afirmou que apresentaria um projeto de lei ao Congresso para endurecer as sanções contra empresas que realizam perfurações e participam de “outras atividades nas ilhas que afetam nossos recursos naturais”.
Anteriormente, Milei defendia a diplomacia em vez do confronto em relação às Malvinas. A Argentina reivindica soberania sobre as Ilhas Malvinas há quase dois séculos e perdeu uma guerra contra o Reino Unido por causa delas, em 1982. O Reino Unido afirmou na sexta-feira (4) que sua posição era “inabalável”.
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2026-09-05 17:24:15Como a Argentina não administra as ilhas, não pode impedir diretamente a perfuração no local.
Em Buenos Aires, Mariana Hamicha, uma contadora de 49 anos, disse que a postura mais firme de Milei sinalizava que a Argentina estava defendendo seus interesses.
“Acho que assumir uma postura firme, especialmente no que diz respeito à exploração por empresas estrangeiras e à extração de petróleo, pode ser uma forma de traçar um limite”, disse Hamicha.
Milei também propôs a criação de um conselho de segurança nacional para coordenar as políticas de segurança aeroespacial e marítima, e prometeu mais recursos para uma base naval na província mais ao sul, a Terra do Fogo, um ponto de acesso estratégico às Ilhas Malvinas e à Antártida. O governo não forneceu mais detalhes sobre o projeto de lei.
“O que Milei entendeu é que este é o momento de agir”, disse Juan Battaleme, ex-secretário de assuntos internacionais da Defesa no governo de Milei.
EUA podem revisar posição
O discurso de Milei ocorreu dias depois que o presidente Donald Trump sugeriu que os EUA poderiam reconsiderar sua postura neutra, citando frustração com o apoio limitado do Reino Unido às operações militares lideradas pelos EUA no Oriente Médio.
O campo petrolífero Sea Lion, ao norte das Ilhas Malvinas, é operado pela Navitas Petroleum, detentora da participação majoritária, enquanto a Rockhopper Exploration detém 35%. As duas empresas têm fortes laços com investidores israelenses.
As empresas afirmaram na sexta-feira que possuíam licenças válidas de exploração de petróleo e não acreditavam que os comentários de Milei afetariam o projeto. As ações de ambas as empresas sofreram forte queda na sexta-feira.
Candela Mascetti, pesquisadora da Escola Superior de Guerra em Buenos Aires, disse que as declarações de Milei marcaram uma mudança notável para um presidente frequentemente criticado por não dar atenção suficiente à questão das Malvinas.
“Não acho que ter uma base naval implique um chamado às armas, mas é uma postura que não tínhamos visto do governo de Milei de forma tão contundente”, disse Mascetti.
Baixo índice de aprovação
Veteranos da Guerra das Malvinas e a oposição de esquerda criticaram Milei por elogiar a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cujo governo derrotou a Argentina na guerra pelas ilhas, como uma das “maiores líderes” do mundo. Ele também disse que a Argentina esperava que os habitantes das ilhas “um dia decidissem votar em nós”, um comentário que, segundo os críticos, ecoou a ênfase do Reino Unido no direito dos residentes à autodeterminação.
Milei, que deve concorrer à reeleição em 2027, tem um baixo índice de aprovação, de 36,8%, de acordo com uma pesquisa realizada em agosto pela Zuban Córdoba e Associados.
“Dados os números das pesquisas de Milei — e as sugestões de Trump de que ele está reconsiderando a posição dos EUA na disputa –, faz sentido que Milei esteja adotando uma linha mais dura”, disse Benjamin Gedan, diretor do programa para a América Latina do Stimson Center, com sede nos EUA.
Até mesmo alguns de seus adversários políticos receberam bem o anúncio de quinta-feira, embora tenham criticado Milei por não ter tomado medidas mais enérgicas antes.
Juan Grabois, um proeminente líder de esquerda, disse no X: “A reviravolta de 180 graus de Milei é bem-vinda; ele passou de um tolo colonizado a reivindicar a postura histórica da Argentina.”
Guillermo Carmona, que supervisionou a política argentina em relação à reivindicação das Malvinas durante o governo anterior de centro-esquerda, disse que as medidas de Milei foram um passo positivo, mas insuficiente, dadas as estreitas relações diplomáticas da Argentina com Israel.
“Milei precisa pressionar o governo israelense”, disse.
Autoridades israelenses não responderam a um pedido de comentário sobre as sanções propostas por Milei.