Mercado pede responsabilidade fiscal no centro da discussão para 2027

Economistas citam despesas obrigatórias, indexação do salário mínimo e programas sociais como fatores de influência na dívida e déficit primário bilionário do Governo Federal

Mercado pede responsabilidade fiscal no centro da discussão para 2027
Compartilhar:

As contas públicas estão batendo à porta do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enquanto o presidente se prepara para disputar um novo mandato em 2026.

Economistas consultados pelo CNN Money percebem uma mudança no discurso do governo. Ainda assim, a expansão de programas sociais em 2026 e a deterioração do resultado fiscal levantam dúvidas entre especialistas sobre a capacidade de manutenção desse compromisso após as eleições.

 

Recomendado para você

Dados divulgados pelo Banco Central no fim de julho mostram que o setor público consolidado – formado pelo governo central, governos regionais e empresas estatais – registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões em junho.

No mesmo mês de 2025, o déficit havia sido de R$ 47,1 bilhões. Na comparação anual, portanto, o rombo aumentou em R$ 8,2 bilhões.

No acumulado de 12 meses até junho, o setor público consolidado registrou déficit de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB.

Para Marcela Kawauti, economista-chefe e sócia da Lifetime Investimentos, o resultado é relevante não apenas por mostrar que o país gasta mais do que arrecada, mas também por seus efeitos sobre a trajetória da dívida pública.

Atualmente, o Brasil tem uma das maiores relações entre dívida e PIB entre as principais economias. No G20, fica atrás apenas da China.

“O Brasil tem uma relação dívida/PIB – ou seja, o quanto o país deve em relação ao tamanho da sua economia – que ultrapassa os 80%. Essa evolução é uma característica bastante prejudicial para a economia”, afirma.

Segundo Kawauti, os efeitos da dívida e do déficit fiscal vão muito além das contas do governo e podem chegar ao cotidiano da população – sobretudo com a taxa de juros.

“Para o governo se financiar, quando ele não tem um equilíbrio orçamentário, o mercado oferece juros maiores. Isso faz com que a taxa Selic, que baliza o custo de capital para financiamentos, também suba.”

O impacto sobre os juros, portanto, não se restringe ao orçamento público. Embora tenha recuado nos últimos meses, a taxa básica permanece em patamar elevado, em 14% ao ano.

Os juros reais – a taxa corrigida pela inflação -, por sua vez, estão em 9,33%, atrás apenas da Rússia, segundo ranking da MoneYou em parceria com a Lev Intelligence.

A incerteza fiscal também pode pressionar o câmbio.

“Toda vez que existe incerteza fiscal, o mundo todo olha para aquele país com um pouco mais de temor. E aí temos uma saída de capitais e uma queda da demanda pelo real brasileiro, o que faz com que a taxa de câmbio suba”, explica Kawauti.

O mercado acionário tem refletido esse ambiente. Investidores estrangeiros retiraram quase R$ 12 bilhões da Bolsa brasileira em agosto.

Em sete pregões até 11 de agosto, a saída líquida chegou a R$ 11,93 bilhões, sem considerar aportes em IPOs (ofertas públicas iniciais) e follow-ons, segundo dados da Elos Ayta divulgados na última quinta-feira (13).

O dólar, por sua vez, acumula valorização na semana. Em alta desde segunda-feira, a moeda americana já avançou cerca de 2%.

Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Brasil e ex-secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, a valorização do dólar também pode pressionar a inflação.

“Se o dólar tá caro, as importações ficam mais caras, a produção fica mais cara e a inflação sobe.”

Uma inflação mais elevada pode exigir uma política monetária mais restritiva, mantendo os juros elevados e criando um ciclo que aumenta o custo da dívida e dificulta o ajuste das contas públicas.

Os desafios do governo para ajustar as contas

O presidente Lula já vem sendo aconselhado a adotar medidas de ajuste fiscal após as eleições de 2026, previstas para daqui a 50 dias.

Paralelamente, o governo passou a incorporar sinais mais claros de compromisso com a responsabilidade fiscal em seu programa de governo para um eventual novo mandato.

Para Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, porém, ainda falta credibilidade a essa promessa.

“A gente precisa fazer um ajuste de quatro pontos percentuais do PIB, aproximadamente R$ 500 bilhões. É muito dinheiro. As contas públicas são o nosso calcanhar de Aquiles. Essa é a má notícia”, afirma.

Apesar do tamanho do desafio, Barros avalia que, caso o tema ganhe força no debate público, o equilíbrio das contas é possível, independentemente de quem assumir a Presidência em 2027.

Reformas

Na avaliação dos economistas, uma das principais frentes para enfrentar o problema passa por reformas que alterem a estrutura das despesas obrigatórias.

“Hoje, 15% da receita líquida do governo vai para a saúde, enquanto 18% vai para a educação, por exemplo. Essas despesas obrigatórias não podem ser continuadas matematicamente. Mesmo se houver um corte, isso não significa que o país irá parar de investir nessas frentes, mas aplicará dinheiro com mais qualidade e eficiência”, afirma Barros.

A vinculação das despesas ao salário mínimo também é apontada pelo economista como um dos problemas a serem enfrentados.

Segundo ele, a cada R$ 1 de aumento do salário mínimo, a despesa do governo cresce em R$ 400 milhões.

Salto, por sua vez, cita os salários do funcionalismo público como outra frente de revisão.

Em sua avaliação, mudanças nessa área poderiam gerar uma economia de R$ 11 bilhões por ano. As emendas parlamentares, afirma, também poderiam representar uma redução de R$ 20 bilhões anuais nas despesas.

As políticas sociais também entram no debate. Em 2026, o governo Lula lançou programas como o Desenrola 2.0 e o Move Brasil, além da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil.

“Hoje a gente está gastando como se fosse um país rico e o Brasil, infelizmente, ainda é um país de renda média”, diz Barros.

Já Salto defende a adoção de reformas capazes de recolocar as contas públicas em trajetória de superávit de 2%.

Para Kawauti, porém, mais importante do que uma medida pontual é estabelecer uma estratégia fiscal de longo prazo.

“Isso faz com que saibamos qual caminho o governo deve tomar e consigamos enxergar a economia brasileira pelos próximos cinco, dez anos de uma forma com mais estabilidade do ponto de vista fiscal.”



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/mercado-pede-responsabilidade-fiscal-no-centro-da-discussao-para-2027/