Manuscritos e anotações apreendidos pela PF (Polícia Federal) durante a Operação Unha e Carne, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro usando uma rede de postos de combustíveis no Rio de Janeiro, revelam repasses financeiros feitos ao deputado eleito Márcio Canella (União Brasil).
Canella, que já ocupou anteriormente o cargo de deputado estadual e de prefeito de Belford Roxo, foi preso na manhã desta quinta-feira (15) durante a deflagração da oitava fase da operação.
O ex-prefeito é apontado pela Polícia Federal como o patrono político e principal articulador de alto escalão do grupo criminoso.
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2026-10-22 18:00:27Ele atuava como elo entre o núcleo econômico responsável pela exploração da rede de postos de combustíveis, agentes públicos e estruturas políticas, viabilizado indicações políticas e intermediado verbas de emendas de comissão para Belford Roxo.
Repasses financeiros
O grupo é suspeito de lavar dinheiro através de uma rede de postos de combustíveis na região metropolitana do Rio de Janeiro e teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.
De acordo com as investigações, Canella era beneficiário recorrente da distribuição de recursos reusltantes da exploração econômica dos postos de combustíveis e de outras movimentações ilícitas do grupo.
Anotações e manuscritos do controle financeiro informal do grupo foram apreendidos anteriormente na operação, especialmente durante a sexta fase, nas residências de José Carlos Alves de Souza Júnior, o “Junior”, e de Luisi Corrêa Pinho.
Os documentos indicam que os repasses a Canella não foram episódios isolados, mas uma prática contínua de distribuição dos lucros ilícitos.
Os manuscritos mostram o rateio dos valores de diversos estabelecimentos, como o Posto Jardim Ubá e o Auto Posto LP Francis. Veja:

As imagens mostram, sublinhados em vermelho, os valores que eram repassados para Canella. Há também menções a outros envolvidos, como Amim e Russo.
A PF destacou que, entre os sócios dos postos, estão pessoas diretamente ligadas aos investigados, como um familiar de Canella.
A movimentação financeira do ex-prefeito contava com transações sem origem declarada e favorecimento de empresários ligados ao esquema.
Uma dessas movimentações suspeitas partiu da empresa Brumar, da qual Canella é sócio em partes iguais com Bruno Viana de Souza, em que R$ 1,4 milhão foi transferido para o político entre maio de 2025 e abril de 2026. A PF não conseguiu identificar origem lícita para esse valor.
Durante a atuação dele como prefeito de Belford Roxo, relatórios destacam que empresas como a ECO 805 e a Elite Turística — vinculadas Márcio Samary Machado, operador financeiro da organização criminosa — fecharam contratos milionários com o município.
Oitava fase da operação
Esta é a 8ª fase da Operação Unha e Carne, investigação que anteriormente prendeu os políticos Rodrigo Bacellar, TH Joias, Thiago Rangel e o pastor Márcio Poncio.
A ação desta quinta-feira (15) se insere no âmbito da Força-Tarefa Missão Redentor II, iniciativa coordenada pela Polícia Federal que visa desmantelar organizações criminosas atuantes no estado do Rio de Janeiro.
Além de Canella, entre os alvos dessa fase da operação estão o ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Marcus Vinicius Amim Fernandes; Pablo Jukia Felix Ferreira, o “Pablo Russo”; José Carlos Alves de Souza Júnior; Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes.
Ao todo, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
A Justiça ainda determinou o sequestro de bens e valores, além da suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro.
Segundo a PF, desse total, 96 são postos de combustíveis, utilizados para camuflar e legalizar os recursos de origem criminosa.
A CNN Brasil apurou que “Pablo Russo” teria integrado equipes comandadas por Marcus Amim em diversas delegacias e seria o verdadeiro controlador, por meio de supostos laranjas, de uma rede de postos de combustíveis com empresas ativas e inativas, utilizada para ocultar e lavar recursos ilícitos.
Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, conforme suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.
Histórico de Canella
Em julho, Canella foi preso em flagrante após agentes da Polícia Federal encontrarem um fuzil calibre .556 no veículo em que estava. Inicialmente, ele estava entre os alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos na sexta fase da Operação Unha e Carne.
Na ocasião, Canella afirmou que o fuzil apreendido pertencia ao policial militar responsável por sua segurança.
Três dias após a prisão, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes determinou a soltura do ex-prefeito de Belford Roxo.
A decisão autorizou que Canella respondesse ao processo em liberdade, mediante o cumprimento de medidas cautelares. Entre elas estão o uso de tornozeleira eletrônica, a entrega do passaporte e a suspensão do porte de arma.
Nas eleições deste ano, foi eleito como o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro, com 197.178 votos, o equivalente a 2,24% dos votos válidos no estado.