Limpeza política e militar deve focar no narcotráfico, diz professor
Augusto Teixeira, da UFPB, afirma que ações militares "pouco resolvem" e que o combate efetivo exige saneamento de instituições cooptadas pelo crime
A ação militar coordenada entre Estados Unidos e Equador no combate ao narcotráfico foi tema de análise do professor Augusto Teixeira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no WW nesta sexta-feira (21).
Para o especialista em Relações Internacionais, as medidas belicosas adotadas, como o bombardeio de rotas e o corte de linhas de comunicação logística do tráfico, "pouco resolvem" os problemas estruturais associados ao tema.
Ações militares e motivações políticas
Teixeira avalia que, do ponto de vista norte-americano, a estratégia tem sentido dentro de um cálculo político e eleitoral interno. Segundo ele, "ações cinéticas, em geral, estão associadas à popularidade e a votos, em grande medida."
Recomendado para você
'Tentava sair, mas ele insistia', diz professora que denunciou assédio após ser mordida por instrutor de academia
'As vezes que ele me abraça, eu não queria', diz mulher mordid...
2026-08-22 01:00:16Datafolha, 1º turno: veja intenção de voto por região, gênero, idade, posição política e religião
Datafolha traz 2 cenários para eleições presidenciais: com e s...
2026-08-22 00:00:23Datafolha, 1º turno: veja intenção de voto por região, gênero, idade, posição política e religião no cenário com Pablo Marçal
Datafolha: Lula, 39%; Flávio Bolsonaro, 33%; Ronaldo Caiado; 5...
2026-08-22 00:00:16O especialista contextualiza que, enquanto outras frentes — como as negociações em relação ao Irã e à Ucrânia — não apresentaram resultados concretos, o combate ao narcotráfico na região pode representar uma entrega política relevante para o eleitorado americano.
Na perspectiva militar dos Estados Unidos, a concepção essencial, segundo Teixeira, é voltada à interdição naval das rotas do tráfico, especialmente dos países da América do Sul em direção ao México e aos próprios Estados Unidos.
Essa estratégia se soma a sanções contra grupos e atores que, segundo a nomenclatura americana, seriam classificados como "narcoterroristas".
Dimensão estrutural do problema
Para Teixeira, no entanto, o enfrentamento efetivo do narcotráfico demanda muito mais do que operações militares. "Isso, em grande medida, envolve um esforço prolongado, essencialmente, na limpeza de instituições políticas e policiais que estão relacionadas ao sistema de justiça", afirmou o professor.
Ele destacou que, em vários países da região, essas instituições apresentam "gravíssimos problemas" e funcionam como um "apoio parasitário para a governança criminal" dos grupos narcotraficantes.
O especialista ressalta que bombardear canais ou linhas de comunicação logística do narcotráfico não é suficiente para resolver questões de caráter estrutural e social.
Para ele, o combate efetivo exige o fortalecimento das instituições estatais e o respeito ao Estado de Direito — algo que, segundo Teixeira, não é prioridade para os Estados Unidos, cujo foco principal é interromper o fluxo de drogas em direção ao seu território.
Implicações para o Brasil e a América do Sul
Teixeira também aponta consequências geopolíticas para o Brasil. Segundo ele, a estratégia norte-americana representa uma pressão sobre o país, especialmente diante da concepção brasileira de autonomia estratégica dentro da América do Sul — percebida, nos últimos anos, como um objetivo geopolítico relevante para o Brasil.
"Podemos estar caminhando várias casas para trás para o começo do século XXI", concluiu o professor, sinalizando um possível retrocesso nas relações de poder na região.