Na próxima segunda-feira (31), o governo dos Estados Unidos deve anunciar detalhes para viabilizar o plano indicado pelo presidente Donald Trump de permitir legalmente que pecuaristas americanos possam processar alimento dentro de suas propriedades.
Trump informou em uma rede social que irá ampliar medidas legais para ampliar o direito ao setor produtivo e acabar com o que ele chamou de “monopólio perverso” das gigantes de carnes globais.
De acordo com a Reuters e o jornal britânico The Guardian, a secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, afirmou que haverá “grandes anúncios” para garantir que os Estados Unidos tenham capacidade de produzir seus próprios alimentos e energia é uma questão de segurança nacional.
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2026-08-30 04:02:21A secretária indicou que o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) quer reduzir entraves regulatórios associados ao processamento e ampliar a possibilidade de pecuaristas comercializarem seus produtos entre diferentes estados.
No tabuleiro estão os pecuaristas americanos estão pressionados por um rebanho insuficiente e por preços pagos inferiores, os frigoríficos que têm permissão legal dentro dos parâmetros de segurança alimentar para processar e industrializar a carne, e o consumidor que lida com a inflação da carne nos EUA.
E, além disso, o governo de Donald Trump tenta estancar impopularidade associada ao preço da carne bovina antes das eleições de meio período, que ocorrem em novembro, permitindo importar a proteína animal temporariamente sem taxa extra-cota.
Se de um lado, pecuaristas estão descontentes, do outro a tentativa de Donald Trump de reduzir o poder das grandes indústrias de processamento de carne parte de um diagnóstico incompleto sobre a crise enfrentada pelo mercado norte-americano em 2026, explica Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.
“O governo Trump está tentando reduzir o poder dessas indústrias de processamento de carne no mercado norte-americano, atribuindo a elas parte da responsabilidade pela crise que o setor atravessa em 2026. Mas não é bem assim. Também faltaram incentivos governamentais para estimular o aumento do rebanho”, afirma Iglesias ao CNN Agro.
Segundo o analista, a redução da oferta de gado nos Estados Unidos é resultado de uma combinação de fatores acumulados ao longo dos últimos anos, que vão além da concentração da indústria frigorífica.
“Houve muito incentivo à produção de grãos nos Estados Unidos ao longo desta década, e isso acabou afetando a pecuária. Além disso, tivemos secas nas planícies do norte, que reduziram a disponibilidade de feno para a alimentação dos animais. Houve uma série de fatores que elevaram muito o custo da dieta nos Estados Unidos”, explica.
Iglesias também avalia que uma eventual tentativa de ampliar a participação dos próprios pecuaristas no processamento de carne enfrenta obstáculos estruturais. Atualmente, as grandes companhias instaladas no país concentram elevada capacidade de abate e processamento e exercem forte influência sobre a dinâmica do mercado.
“Não é necessariamente simples alterar essa lógica. Hoje, essas empresas têm uma capacidade de processamento muito ampla e um domínio muito grande sobre o mercado norte-americano. Portanto, não é simples mudar essa estrutura oferecendo ao produtor a perspectiva de criar frigoríficos próprios”, diz.
Na avaliação do analista, mesmo que a iniciativa avance, os efeitos sobre a cadeia de carne bovina dos Estados Unidos não devem aparecer no curto prazo.
“É uma medida que não vai produzir mudanças rapidamente. Serão necessários pelo menos dois ou três anos para que isso possa, de fato, trazer algum impacto para o mercado norte-americano”, conclui Iglesias.
Como noticiou a CNN, Trump anunciou em 25 de agosto, um plano para ampliar temporariamente a entrada de carne bovina estrangeira sem tarifas, como forma de aumentar a oferta e tentar reduzir os preços aos consumidores americanos. A medida, no entanto, provocou reação entre pecuaristas e parlamentares de importantes Estados produtores, incluindo o senador republicano Tim Sheehy, de Montana, aliado do presidente.
O setor teme que o aumento das importações de carne mais barata pressione as cotações no mercado doméstico, especialmente da carne moída, e reduza a rentabilidade dos produtores. A avaliação é que margens menores podem comprometer justamente os investimentos necessários para a recomposição do rebanho bovino dos Estados Unidos.
Segundo o The Guardian, ainda há dúvidas sobre o alcance legal da medida, já que os Estados Unidos mantêm regras rígidas de inspeção para o processamento e a venda de carne.
Uma proposta para flexibilizar essas exigências para pequenos produtores está parada no Congresso. Um dos autores do projeto, o republicano Thomas Massie, avaliou que a mudança deveria ser feita por lei, e não apenas por ordem executiva.
Os últimos anúncios da secretária de agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, foram para mostrar atenção com o setor produtivo americano, ao passo que tentou conter um potencial descontentamento dos pecuaristas com a importação de carne bovina de outros países.
Antes do anúncio do presidente americano, Rollins participou da Feira Estadual de Iowa, em Des Moines, no último dia 22 de agosto, quando citou que apoiava a flexibilização temporária das restrições da compra de carne bovina estrangeira diante de um cenário de rebanho limitado nos EUA.
Segundo Rollins, a medida ajudará a enfrentar a oferta restrita de carne bovina e os preços elevados para os consumidores.
Os Estados Unidos consomem cerca de 13 milhões de toneladas de carne bovina por ano, segundo o USDA. Desse total, aproximadamente 11 milhões de toneladas são provenientes de animais criados no próprio país. O restante é atendido pelas importações — algo que a secretária classificou como normal para o mercado americano.
“Somente nos próximos 90 dias, vamos trazer cerca de 300 mil toneladas de carne moída de outros países”, afirmou. “Assim, poderemos conseguir uma redução de 25% para as famílias. Normalmente, as famílias de renda mais baixa dependem mais da carne moída”, afirmou a secretária, segundo o canal de notícias de agro americano Brownfield.
De acordo com o veículo, a Associação de Pecuaristas de Iowa (Iowa Cattlemen’s Association), criticou a iniciativa. “Mesmo que seja carne moída, ainda é carne que está entrando no país como um produto estrangeiro”, disso o presidente da entidade, Bryan Whaley.