EUA anuncia plano para pecuaristas com prioridade à carne americana

Anúncio feito pela secretária do USDA, Broke Rollins, nesta segunda-feira (31), indica novas medidas para recompor rebanho de gado dos EUA, que está em menor nível em 75 anos

EUA anuncia plano para pecuaristas com prioridade à carne americana
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O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira (31) um novo pacote de medidas para tentar acelerar a recomposição do rebanho bovino do país, que está no menor nível em 75 anos, e que tem como principal foco priorizar pecuaristas de pequeno e médio porte americano, além da indústria de carne do país.

Batizado de “Ranchers First” (“Pecuaristas em Primeiro Lugar, em tradução livre), o plano foi apresentado pela secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, e prevê desde a criação de um mecanismo para incentivar pecuaristas a manter novilhas para reprodução até financiamento para ampliar a atuação de frigoríficos independentes e regionais.

O plano é divulgado depois de posicionamentos do presidente Donald Trump para tentar estancar a insatisfação do setor produtivo americano. Na última sexta-feira (28), Trump antecipou em uma rede social que o seu governo iria ampliar medidas de processamento de alimentos dentro das próprias fazendas.

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Além disso, Trump mencionou uma flexibilização de comércio de carne por parte das indústrias frigoríficas de menor porte para outros estados em detrimento ao que ele chamou de “monopólio perverso” de gigantes do setor.

A impopularidade do presidente cresce diante do aumento do preço da carne e, por isso, alguns anúncios foram feitos, como a importação de carne para hambúrguer sem taxa extra-cota – e que vai ser vendida no país com preço 25% menor.

Já as medidas anunciadas hoje pelo USDA dão continuidade a um plano lançado em outubro de 2025 para fortalecer a indústria americana de carne bovina, destacou Rollins.

Um dos principais pontos é justamente tentar aumentar a disponibilidade de fêmeas destinadas à reprodução, passo necessário para ampliar o rebanho americano nos próximos anos.

O USDA pretende criar uma nova cobertura dentro do programa de proteção de risco pecuário Livestock Risk Protection (LRP), chamada Beef Retention and National Development (BRAND). O instrumento serve para reduzir o risco financeiro para o pecuarista que decide reter uma novilha para reprodução em vez de destiná-la ao abate.

A cobertura terá duração de dois anos e estabelecerá um valor protegido com base no preço esperado da novilha para abate no momento da contratação. Se o valor do animal para abate superar a vantagem econômica de mantê-lo como matriz durante o período, o mecanismo prevê compensar a diferença.

A estratégia ataca um dos principais desafios para a recuperação da oferta americana de carne. Para aumentar o rebanho, produtores precisam segurar mais fêmeas nas propriedades, reduzindo no curto prazo o número de animais disponíveis para abate.

Governo também mira processamento de carne

Outra frente importante do pacote é a tentativa de ampliar a participação de frigoríficos independentes e regionais no processamento de carne bovina.

O USDA anunciou que criará um programa de empréstimos garantidos dentro do Strengthening Processing for U.S. Ranchers (SPUR), iniciativa que já havia sido apresentada para apoiar unidades pequenas e regionais.

Os recursos poderão ser utilizados para criar cooperativas de processamento, ampliar pequenas empresas e diversificar as proteínas processadas pelas unidades.

O governo também pretende lançar uma iniciativa específica para fortalecer a continuidade das operações de frigoríficos regionais.

Segundo o USDA, diante dos recentes anúncios de fechamento de plantas, quase 20% da capacidade de processamento de carne bovina estará disponível à medida que o rebanho americano voltar a crescer.

A administração Trump vê a situação como uma oportunidade para ampliar a presença de frigoríficos americanos independentes, pequenos e médios e de novas cooperativas no setor.

No novo anúncio, Rollins voltou a criticar a concentração e a presença de capital estrangeiro na indústria.

“Estamos investindo recursos reais para reconstruir o grande rebanho bovino americano, dando aos produtores as ferramentas de gestão de risco de que precisam, reduzindo a burocracia que sufocou pequenos produtores e operadores independentes e exigindo transparência em um mercado que esteve concentrado e sob controle estrangeiro por tempo demais”, afirmou em nota.

Carne americana terá prioridade em compras públicas

O pacote também utiliza o poder de compra do governo para tentar estimular a demanda pela produção doméstica.

O USDA informou que dará prioridade à aquisição de carne bovina americana processada localmente em instituições federais e estaduais, como hospitais, presídios e outras instalações públicas.

A estratégia amplia uma iniciativa anunciada na semana passada para aumentar a presença de carne americana e alimentos locais nas refeições servidas nas escolas.

O Departamento de Agricultura pretende trabalhar com outras áreas do governo, incluindo os departamentos de Saúde e Serviços Humanos, Justiça, Assuntos de Veteranos e Guerra, para ampliar a aquisição de alimentos produzidos no país.

Novos pecuaristas

O USDA também anunciou medidas para incentivar a entrada de novos produtores na atividade. Pecuaristas iniciantes poderão acessar linhas da Farm Service Agency (FSA) para aquisição de terras, animais e equipamentos, além de assistência para manejo de pastagens e programas de seguro pecuário.

O governo pretende ainda criar uma iniciativa voltada especificamente a agricultores e pecuaristas iniciantes e veteranos das Forças Armadas.

A intenção é utilizar inclusive programas destinados a militares que estão deixando o serviço para direcionar parte desses profissionais a carreiras na agricultura e na pecuária.

Pacote amplia ofensiva sobre a carne bovina

O anúncio é mais uma etapa da ofensiva do governo Trump para tentar reorganizar a cadeia americana de carne bovina diante da redução do rebanho e da pressão dos preços aos consumidores.

Segundo o site de notícias americano Axxios, existem pontos de tensão entre Trump e congressistas republicanos que representam o setor produtivo, o que pode complicar as eleições de meio de mandato previstas para início de novembro.

Entidades do setor da carne americana também se opuseram à postura de Trump por alegarem fragilidade em relação à segurança das inspeções federais do campo à indústria.

Desde outubro do ano passado, Washington vem anunciando medidas para ampliar áreas de pastagem, reduzir exigências regulatórias e aumentar a capacidade de processamento independente.

Em junho, o governo disponibilizou US$ 60 milhões para expansão da capacidade americana de processamento de carnes e anunciou até US$ 500 milhões para frigoríficos independentes e regionais por meio do programa SPUR.

Agora, o foco avança também para dentro das fazendas: convencer o pecuarista a manter mais fêmeas no campo para reconstruir um rebanho que levou anos para chegar ao atual nível reduzido.

A recomposição, no entanto, não produz efeitos imediatos sobre a oferta de carne. A retenção de novilhas pode inclusive limitar a disponibilidade de animais para abate no curto prazo, enquanto os ganhos de produção aparecem apenas depois que essas fêmeas entram no ciclo reprodutivo e produzem novos bezerros.

Além disso, o pecuarista americano tem que lidar com mosca-da-bicheira (Cochliomyia hominivorax), identificada no país em junho de 2026, que obrigou um abate sanitário no rebanho mexicano que abastece os americanos. A situação apertou ainda mais a oferta de carne em um país onde a demanda só aumenta.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/eua-anuncia-plano-para-pecuaristas-com-prioridade-a-carne-americana/