Estudo diz que cães conseguem perceber sentimentos por expressão facial
Imagens de pessoas sorrindo ativaram regiões cerebrais ligadas ao processamento de recompensas e cognição superior, aponta estudo
É algo que todo dono de cachorro sabe — mas agora temos a ciência para provar: os cães realmente conseguem perceber quando estamos felizes ou tristes.
Cientistas escanearam o cérebro de cães para revelar como eles processam diversas expressões humanas, incluindo felicidade, tristeza, raiva e medo, de acordo com um estudo publicado na segunda-feira no periódico iScience.
As varreduras, realizadas por uma equipe da Universidade de Viena, mostram como o cérebro dos animais reage de maneira diferente dependendo da expressão facial demonstrada pelos humanos.
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2026-08-14 03:00:47A autora principal do estudo, Laura Cuaya, explicou as descobertas em um comunicado à imprensa publicado no site da universidade. "Quando comparamos humanos com primatas, estamos analisando habilidades que podem ter vindo de um ancestral comum", disse ela.
“Com os cães, a história é totalmente diferente. Eles seguiram um caminho evolutivo muito diferente, mas, por meio da domesticação, desenvolveram as habilidades sociais necessárias para nos entender e cooperar conosco.”
Os pesquisadores escanearam o cérebro de oito cães — seis border collies, um labrador e um golden retriever — enquanto mostravam a eles imagens de estranhos com expressões felizes ou neutras. As imagens de rostos felizes aumentaram a atividade em partes do cérebro associadas ao processamento cognitivo superior e à recompensa: o córtex temporal e o núcleo caudado.
“Isso sugere que rostos humanos felizes podem ter um significado emocional para os cães”, disse Cuaya, que iniciou a pesquisa na Universidade Nacional Autônoma do México e posteriormente a expandiu por meio de uma colaboração com a Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, antes de se mudar para a capital austríaca.
Em seguida, os pesquisadores quiseram saber se as mesmas áreas do cérebro dos cães responderiam a outras emoções. Eles mostraram a 12 cães fotos de pessoas sentindo-se felizes, zangadas, com medo ou tristes e usaram aprendizado de máquina para analisar a atividade cerebral deles.
Mas o cérebro dos cães não reagiu da mesma forma às expressões de raiva, medo ou tristeza como reagiu à felicidade. No entanto, uma análise de todo o cérebro mostrou padrões distintos de atividade quando os cães viam rostos expressando emoções negativas.
“Os humanos são muito bons em perceber pequenos detalhes no rosto, assim como os cães”, disse o primeiro autor, Raúl Hernández-Pérez, também da Universidade de Viena. “Isso torna os cães muito interessantes. Ao estudar seus cérebros, podemos entender quais adaptações se desenvolveram para sustentar sua notável compreensão social e emocional dos humanos.”
Cuaya e Hernández-Pérez são parceiros tanto na vida privada quanto na profissional e têm dois cachorros, Odin e Kun-kun, que fizeram parte deste estudo.
Hernández-Pérez disse à CNN que "descobrir que o núcleo caudado estava envolvido no processamento de rostos felizes foi uma grata surpresa", acrescentando: "Em diversas espécies, essa região tem sido associada ao processamento de recompensas. Em cães especificamente, a atividade do núcleo caudado tem sido relacionada a recompensas alimentares, mas também a recompensas sociais, como ouvir elogios e perceber o cheiro de uma pessoa familiar."
“Embora não possamos acessar diretamente a experiência subjetiva dos cães, nossos resultados sugerem que ver rostos felizes, mesmo de estranhos, envolve um processamento afetivo positivo.”
A equipe enfatizou que a forma como os cães processam as emoções vai além de simplesmente olhar para a imagem de uma expressão facial estática, pois eles levam em consideração outros fatores, como a linguagem corporal, a voz e o cheiro do humano. Ressaltaram também a importância de observar que todos os cães envolvidos na pesquisa viviam em lares amorosos. Cães que vivem nas ruas podem ter uma maneira completamente diferente de processar sinais humanos.
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Hernández-Pérez disse à CNN que os cães tiveram que ser especialmente selecionados e treinados para participar. "Os cães precisavam ser de porte médio, principalmente por causa das dimensões do equipamento de ressonância magnética, saudáveis e sem problemas comportamentais, como um forte medo de sons altos", afirmou.
“Primeiro, ensinamos aos cães que a tarefa é simplesmente permanecerem imóveis, começando com apenas um ou dois segundos e aumentando gradualmente a duração. Na verdade, uma das partes mais desafiadoras é comunicar ao cão que 'não fazer nada' é, na verdade, a tarefa. Em seguida, introduzimos gradualmente os diferentes elementos do ambiente de ressonância magnética, incluindo a posição, os equipamentos e os sons do aparelho. Os cães sempre participam voluntariamente e podem sair a qualquer momento.”
Os autores afirmaram que a pesquisa apresentou diversas limitações. O número de cães envolvidos no estudo foi pequeno e a maioria deles eram border collies, uma raça inteligente conhecida por sua capacidade de seguir sinais sociais.
“É possível que os border collies tenham uma maior capacidade de interpretar expressões faciais humanas, e estudos futuros são necessários para determinar se existem diferenças comportamentais e cerebrais na percepção de expressões faciais humanas entre as raças”, afirmou o estudo.
Os cientistas agora esperam adotar uma "abordagem mais centrada no cão" em suas pesquisas, a fim de entender como os cães usam esses sinais para compreender os humanos.
Hernández-Pérez disse à CNN: “Ao refletirmos sobre a notável atenção que os cães demonstram pelas nossas emoções, podemos também tentar melhorar a nossa capacidade de reconhecer como eles expressam as suas próprias. As emoções são uma forma poderosa de comunicação que nos pode conectar entre diferentes espécies.”