Ernst & Young: agro precisa diversificar mercados e fortalecer governança
Agronegócio brasileiro deve se preparar para um cenário de maior volatilidade, com mudanças no comércio internacional, impactos climáticos e maior seletividade no mercado de crédito, segundo sócio-líder de agronegócio
O agronegócio brasileiro deve se preparar para um cenário de maior volatilidade, com mudanças no comércio internacional, impactos climáticos e maior seletividade no mercado de crédito. A avaliação é de Otávio Augusto Lopes, sócio-líder de Agronegócio da Ernst & Young para a América Latina, em entrevista exclusiva ao CNN Agro News nesta terça-feira (21).
Segundo Lopes, o aumento de tarifas comerciais e as incertezas nas relações internacionais devem ser tratados pelas empresas como parte de um novo ambiente de negócios. Ele afirmou que o setor já vem adotando estratégias para reduzir riscos, como a busca por novos destinos para produtos brasileiros e a criação de alternativas comerciais.
“Esse é o ‘novo normal’. Esse tarifaço não foi o primeiro, já tivemos outras declarações do presidente Trump sobre tarifas. As empresas já vêm se preparando. A primeira coisa é a questão de concentração de mercado. É importante procurar novos destinos para os produtos brasileiros”, afirmou.
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2026-07-21 14:08:43Para o executivo, além da diversificação de mercados, as empresas precisam desenvolver estruturas comerciais capazes de atender diferentes regiões e lidar com mudanças tarifárias. “Buscar arranjos aduaneiros e tarifários que driblem não só esses contextos, mas também outros que vão surgir. Preparar um novo footprint para atender outros mercados é de fundamental importância nesse contexto”, disse.
Sobre os efeitos do fenômeno El Niño, Lopes destacou que os impactos devem ocorrer de maneira desigual entre as regiões produtoras brasileiras, com riscos e oportunidades distintos.
“O El Niño vai trazer de uma forma assimétrica riscos, mas também oportunidades no Brasil. A gente vê um volume excessivo de chuvas no Rio Grande do Sul, mas vê um Centro-Oeste mais seco, talvez com déficit hídrico”, afirmou.
De acordo com ele, esse cenário pode exigir mudanças no manejo agrícola e no planejamento das atividades no campo, incluindo ajustes no calendário de plantio.
O executivo também destacou a importância de instrumentos financeiros para reduzir a exposição dos produtores às oscilações de mercado. Entre eles, citou o seguro agrícola e mecanismos de proteção contra variações cambiais.
“A governança não é mais acessória para o agronegócio, é mandatória. A gente vê que a demanda por transparência e sustentabilidade está norteando o comércio internacional”, afirmou.
Ao comentar o cenário de endividamento do setor, Lopes afirmou que o ambiente de juros elevados no Brasil aumenta a necessidade de planejamento financeiro por parte das empresas.
Segundo ele, o perfil do Plano Safra trouxe uma redistribuição de recursos, com maior participação de linhas voltadas ao investimento, o que pode estimular uma preparação estrutural do setor para novos desafios.
“O crédito subsidiado público não é a única estrutura para financiar o agronegócio. Existem diversas linhas de crédito e o agro precisa se preparar para trabalhar com essas linhas”, afirmou.
Lopes destacou que existem alternativas de financiamento voltadas à modernização, sustentabilidade e logística, mas ressaltou que o acesso ao crédito está mais condicionado a critérios de transparência e adequação às exigências do mercado.
“O ofertador de crédito está muito mais enrijecendo as regras. A gente vê uma cobrança muito grande por transparência e por questões de sustentabilidade, e as empresas vão precisar se preparar em sintonia com o que esse mercado de crédito está pedindo”, disse.
“Existe sim oferta de crédito, mas muito mais seletiva. As empresas que estão se adequando vão poder aproveitar as oportunidades que esse mercado vai ofertar”, disse.
O ambiente de maior exigência financeira e operacional também pode influenciar a estrutura do setor, segundo Lopes. Ele afirmou que pode haver um movimento de concentração, com aumento de operações de fusões e aquisições (M&A).
“Isso é consequência desse cenário em que empresas que estão mais bem preparadas, sob a ótica de governança e acesso a capital estrutural, vão acabar comprando as que estão menos preparadas”, afirmou.