Entidades bancárias estão cautelosas com crédito, diz CEO da Pact
Aumento de 25% nos pedidos de recuperação judicial no 2º trimestre gera insegurança na análise de crédito, segundo Lucas Pena, da Pact
A política monetária restritiva do Banco Central tem chegado com força à economia brasileira neste segundo semestre, com reflexos diretos no avanço da inadimplência e no crescimento dos pedidos de recuperação judicial.
Segundo o Monitor RGF-Bizdoc, o número de empresas nessa situação cresceu 25% no segundo trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Entre os casos mais emblemáticos deste período está o da Casas Bahia, cujo pedido de recuperação judicial foi protocolado recentemente.
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2026-08-21 20:01:12Em entrevista ao CNN Money, Lucas Pena, da Pact, avaliou o cenário e suas implicações para o mercado de crédito no país.
Incertezas macroeconômicas aceleram pedidos de recuperação
Para Lucas Pena, o aumento nos pedidos de recuperação judicial reflete, sobretudo, o efeito das incertezas macroeconômicas sobre as empresas.
"A gente teve um ano bastante surpreendente, com uma série de guerras e de condições que não necessariamente eram esperadas nos planejamentos estratégicos corporativos", afirmou.
Segundo ele, diversas companhias aceleraram a busca pela proteção da justiça para se precaverem de um cenário ainda mais crítico, no qual não conseguiriam cumprir com suas obrigações, especialmente as dívidas bancárias.
Lucas Pena destacou que três grandes recuperações judiciais estão em discussão simultaneamente: Ambipá, Tok&Stok com Mobly e Casas Bahia.
Em todos os casos, ele identificou consequências relacionadas à correção e aos juros, mas também ao processo de transparência dessas companhias com seus passivos financeiros e judiciais ao longo do tempo.
Recuperação judicial não é sinônimo de falência
Lucas Pena ressaltou que a recuperação judicial não deve ser confundida com falência.
"As RJs são justamente um instrumento para que a companhia possa reencontrar o seu trilho de maneira segura, protegida pela justiça", explicou.
Como exemplo de caso bem-sucedido, ele citou o Dia Brasil, empresa do setor de varejo alimentar que concluiu sua recuperação judicial no último semestre.
Ao ser questionado sobre se o crescimento nos pedidos de RJ poderia gerar consequências em escala para a economia, Lucas Pena avaliou que, no cenário atual, isso não deve ocorrer.
Segundo ele, as recuperações ainda estão bastante limitadas e relacionadas a dificuldades específicas de cada empresa em seus respectivos mercados.
Ele citou que concorrentes da Casas Bahia, como Magazine Luiza, Amazon e Mercado Livre, atuam no mesmo setor sem necessidade de reestruturação.
Bancos adotam postura mais cautelosa na análise de crédito
O aumento nos pedidos de recuperação judicial também tem gerado insegurança entre as instituições financeiras.
Lucas Pena apontou que os credores têm se surpreendido com os números apresentados nos balanços encaminhados à recuperação judicial.
"Balanços não necessariamente auditados ou com desencontro de informações básicas que não conseguem demonstrar a necessidade de fato da RJ ou a viabilidade dessa recuperação", disse.
Esse cenário, segundo ele, leva as entidades bancárias a revisitarem seus processos de análise de crédito de forma mais específica e cautelosa.
"Isso vai trazer muita insegurança nesse processo de análise de crédito, não necessariamente pela revisão das taxas de juros, mas por essas instituições revisitarem os seus processos", afirmou Lucas Pena.
O caso das Lojas Americanas foi citado como exemplo em que a falta de transparência nos dados financeiros se tornou pública de maneira abrangente.
Empresas se dividem entre preparadas e despreparadas para a crise
Lucas Pena observou que o momento atual evidencia uma divisão entre as empresas que se prepararam para atravessar períodos mais críticos com saúde operacional e aquelas que não o fizeram.
Para ele, fatores como a disrupção tecnológica — incluindo plataformas digitais e inteligência artificial — combinados às adversidades macroeconômicas, têm dificultado a adaptação de diversas organizações, especialmente no varejo.
Ele também diferenciou o impacto sobre pequenas e médias empresas, mais vulneráveis às condições macroeconômicas e com menor capacidade de suportar juros elevados por longos períodos, das grandes corporações, que deveriam estar mais preparadas, mas enfrentam maior dificuldade de adaptação.
No caso específico da Casas Bahia, Lucas Pena lembrou que a companhia já havia passado por uma recuperação extrajudicial anteriormente, processo que não foi suficiente para restabelecer sua saúde operacional, agravado ainda por sucessivas mudanças de gestão nos últimos anos.