Do agro à moda: borra de café vira couro biodegradável
Marca usou resíduo de escritório para criação tecnológica, que pode escalar a partir das sobras do café coado
A borra de café, que costuma ir direto para o lixo depois de coar a bebida, começa a ganhar novo valor em uma cadeia que conecta campo e moda. Resíduo comum em casas, cafeterias e indústrias virou matéria-prima para uma nova aposta da indústria da moda.
A ideia é da marca brasileira Insider, que começou como startup e agora é uma das líderes do vestuário tecnológico, isto é, que usa fibras diferentes do algodão em um processamento industrial tecnológico.
Segundo a empresa, o chamado “biocouro” está em processo de patenteamento e será apresentado inicialmente em uma "peça-conceito", sem lançamento comercial por enquanto.
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2026-07-10 14:21:17Com os restos do café coado do escritório da Insider, em São Paulo, os pesquisadores fizeram 30 protótipos até chegar a atual fase de patente da peça.
Os próximos passos são escalar a produção a partir de parcerias com a cadeia de café e colocar no varejo para o consumidor final.
"O grande diferencial deste material do couro sintético, por exemplo, é que ele tem uma redução significativa do uso de água em 50 vezes, em relação ao curtimento do couro animal", afirma Karen Prado, líder de pesquisa e desenvolvimento da empresa.
A empresa afirma que o biocouro é potencialmente biodegradável, com pelo menos 75% de composição vegetal, e que cada metro quadrado incorpora borra de café seca equivalente a cerca de 30% do consumo diário médio de café moído e torrado por pessoa no Brasil.
Associações, cooperativas, indústrias ligadas ao café podem se tornar fornecedoras da borra, por exemplo, para a produção da Insider, em especial porque o Brasil é o maior produtor e exportador de café, mas não há nenhum dado do gigante volume de borra da bebida que sobra depois que se coa o grão torrado e moído.
"Superamos a etapa para desenvolver um material com performance parecida do couro e agora o próximo é escalar este material. Tem etapas de avanço de grau de maturidade do projeto para chegar ao mercado", acrescentou.
Do laboratório ao vestuário
O material foi desenvolvido em laboratório em cerca de três meses e passou por aproximadamente 30 protótipos até atingir textura, resistência e aparência semelhantes às do couro, de acordo com a empresa.
A proposta, segundo a companhia, é unir estética, desempenho e circularidade, ao reaproveitar um resíduo gerado a partir de uma das cadeias mais emblemáticas do agronegócio brasileiro.
Nos testes conduzidos pela área de pesquisa e desenvolvimento da marca, 50% do material se decompôs em solo em 15 dias e cerca de dois terços em 30 dias.
A empresa também diz que o processo produtivo do novo material consome menos de 2 litros de água por metro quadrado, ante mais de 100 litros no curtimento do couro tradicional — uma redução superior a 50 vezes.
Para a Insider, a iniciativa se insere em um mercado em expansão de alternativas ao couro convencional. Dados da consultoria Future Market Insights, a empresa afirma que o mercado global de materiais derivados de fontes biológicas deve alcançar US$ 805 milhões em 2025, com crescimento anual de 6,6% até 2030.
O valor é impulsionado pela demanda por produtos veganos e por soluções menos poluentes do que os sintéticos tradicionais.