Crise na Fifa: Confederações criticam falta de transparência
Oposição ao presidente cresce após planos de venda de direitos da Copa do Mundo serem abandonados pela entidade
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, enfrenta uma pressão sem precedentes depois que UEFA e CONCACAF afirmaram neste sábado (1) que perderam a confiança em sua liderança, após o abandono de seu plano de vender uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo.
As dramáticas consequências da proposta de US$ 4,2 bilhões, posteriormente descartada por Infantino, expuseram o crescente desconforto dentro do futebol mundial em relação ao seu estilo de liderança, com a UEFA liderando um coro de críticas que pode complicar suas chances de reeleição.
Onda de oposição
O plano de Infantino, anunciado na terça-feira, rapidamente enfrentou uma onda de oposição das confederações regionais, que reclamaram não terem sido consultadas sobre uma medida que poderia alterar a estrutura comercial do futebol mundial.
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2026-08-01 10:47:31Após a reação negativa, Infantino afirmou que a entidade máxima do futebol mundial havia abandonado os planos depois de ouvir "atentamente todas as opiniões".
O presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), xeque Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, recebeu positivamente neste sábado a decisão da FIFA de voltar atrás.
O xeque Salman, do Bahrein, disse esperar que "qualquer iniciativa com potencial para impactar o futebol mundial seja apresentada e discutida com as Confederações, o Conselho da FIFA, as Associações-Membro e outras partes interessadas de forma oportuna, transparente e significativa."
"O futuro do futebol mundial deve sempre ser moldado por meio de consultas adequadas, diálogo coletivo e respeito às estruturas de governança estabelecidas em nosso esporte."
O presidente da Football Australia, Anter Isaac, adotou um tom semelhante, apoiando a inovação, mas alertando contra a desconsideração de princípios fundamentais de governança, como integridade, independência, boa governança, transparência, consulta significativa e devido processo.
Reeleição de Infantino ameaçada
A controvérsia ocorre em um momento delicado para Infantino, que afirmou em abril que pretende disputar a reeleição para um quarto mandato como presidente da FIFA.
Desde que sucedeu Sepp Blatter em 2016, ele foi reeleito duas vezes sem oposição e parecia exercer controle firme sobre a organização.
Embora sua reeleição para o mandato de 2027 a 2031 parecesse mera formalidade, especialistas disseram à Reuters que a reação negativa à proposta fracassada expôs a insatisfação de parte dos membros da FIFA e pode complicar seu caminho até o Congresso da FIFA, previsto para março do próximo ano, no Marrocos.
"Obviamente, ele tem demonstrado uma postura meio egomaníaca em tudo o que faz. Sei que muitas associações-membro ficaram contrariadas com algumas de suas decisões", afirmou Bob Dorfman, analista de marketing esportivo.
A rapidez da mudança de cenário foi especialmente marcante, ocorrendo menos de duas semanas depois de Infantino celebrar a Copa do Mundo comercialmente mais bem-sucedida da história.
"Há menos de duas semanas, ele estava no topo do mundo, à frente do evento esportivo de maior sucesso comercial da história deste planeta", disse o economista Victor Matheson, especialista em negócios do esporte no College of the Holy Cross, em Massachusetts.
"E apenas duas semanas depois, ele está lutando pela própria sobrevivência política."
A proposta da FIFA desencadeou uma forte reação negativa das confederações regionais, que afirmaram ter sido surpreendidas pelos planos de Infantino de vender participações a investidores privados em uma nova unidade que administraria os eventos da FIFA, incluindo a Copa do Mundo.
Autoridades do futebol agora exigem maior supervisão sobre decisões que podem remodelar a governança e o futuro comercial do esporte.
A UEFA, cujos 55 membros rejeitaram por unanimidade a proposta no início desta semana, declarou que a retirada da FIFA representa uma "vitória para todo o futebol", acrescentando que a "tarefa de reconstruir a confiança na FIFA" estava apenas começando.
"A atual liderança da FIFA não perdeu apenas a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros membros da família do futebol", afirmou a UEFA em um comunicado.
"A UEFA agradece a todos os torcedores, ligas, clubes, jogadores, indivíduos, associações e confederações que se opuseram ao plano, juntamente com os muitos primeiros-ministros, chefes de Estado e comentaristas que demonstraram ao presidente da FIFA que o futebol não está à venda", acrescentou a entidade em comunicado.
"Não podemos continuar dessa forma, com planos secretos em cronogramas acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o futebol. Precisamos identificar os responsáveis e responsabilizá-los."
A CONCACAF, confederação que representa a América do Norte, a América Central e o Caribe, afirmou que a proposta foi apresentada à margem de todos os processos estabelecidos de governança, sem transparência, consulta ou devido processo.
"Uma proposta dessa magnitude não chega a esse estágio por acaso. Ela é um sintoma de uma liderança que deixou de colocar o futebol em primeiro lugar", afirmou.
"Esse recente ato unilateral e flagrante de má governança e liderança segue um padrão de erros e comportamentos semelhantes. Agora deve ocorrer uma revisão completa dessa liderança."
"Acordo obscuro"
A reação negativa levantou questionamentos sobre o capital político de Infantino no momento em que ele se prepara para buscar mais um mandato à frente da entidade.
A UEFA lembrou Infantino das promessas feitas quando foi eleito presidente da FIFA em 2016, incluindo compromissos de administrar a entidade com transparência e tratar os recursos da FIFA como pertencentes às suas associações-membro.
"Em ambas as promessas, ele falhou. O acordo obscuro, feito nos bastidores e sem transparência, que ele arquitetou e tentou impor esteve longe de ser transparente", acrescentou a UEFA.
"E, com reservas superiores a US$ 5 bilhões, ele também deixou de utilizar os recursos das associações em benefício do futebol."
"A UEFA iniciará imediatamente um trabalho com parceiros e partes interessadas em todo o mundo e em todos os níveis do futebol para propor uma nova forma de distribuir recursos por meio do atual programa FIFA Forward."
A FIFA e Infantino se recusaram a comentar o comunicado da UEFA.
A Federação Holandesa de Futebol afirmou que o processo levou a uma "quebra fundamental de confiança" em Infantino, enquanto o presidente da Federação Alemã de Futebol, Bernd Neuendorf, disse que o dirigente suíço "agiu de forma unilateral e sem transparência", deixando de agir no melhor interesse do esporte.
A presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness, afirmou que "a estrutura da cooperação internacional no futebol foi colocada em risco desnecessariamente em busca de interesses individuais".