Competitividade, crescimento e o papel estratégico da logística no Brasil
Brasil precisa ampliar investimentos, integrar modais e garantir previsibilidade para fortalecer a competitividade e aproveitar novas oportunidades no comércio global aponta Ricardo Rocha, presidente da Maersk, em artigo à CNN
Quando discutimos crescimento econômico, produtividade, inflação ou competitividade das exportações brasileiras, raramente a logística ocupa o centro do debate. Mas deveria.
A eficiência logística influencia diretamente o custo de produzir, transportar e comercializar bens. Impacta a competitividade das empresas, a integração do país aos fluxos globais de comércio e a capacidade de oferecer produtos a preços mais competitivos ao consumidor final. Em um ambiente cada vez mais complexo, compreender essa conexão é essencial para entender os desafios e as oportunidades da economia brasileira.
O consumidor atual não avalia apenas o produto que compra. Avalia também sua disponibilidade, a previsibilidade da entrega, a velocidade com que ele chega às suas mãos e o preço final que paga por ele. Em um mercado altamente dinâmico, a logística deixou de ser apenas uma atividade operacional para se tornar um elemento decisivo da experiência do cliente e da competitividade dos negócios.
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2026-08-25 06:00:31Essa relevância tende a crescer nos próximos anos. O avanço do comércio eletrônico, a digitalização dos negócios e a expectativa de aumento do consumo exigirão operações cada vez mais integradas, resilientes e capazes de garantir disponibilidade de produtos, agilidade nas entregas e preços mais atrativos ao consumidor. Nesse cenário, a logística se consolida como um vetor estratégico para reduzir custos, ampliar o acesso aos mercados e gerar valor para clientes e empresas.
A dimensão dessa oportunidade é expressiva. Projeções da ABComm indicam que o e-commerce brasileiro poderá movimentar R$ 259 bilhões em 2026, com aproximadamente 461 milhões de pedidos. Mais vendas, porém, não significam apenas maior faturamento. Representam estoques mais complexos, maior fracionamento de cargas, aumento na frequência das entregas e operações de pós-venda mais exigentes. Categorias de consumo recorrente, como alimentos, higiene e bebidas, intensificam essa dinâmica ao elevar a necessidade de disponibilidade, previsibilidade e eficiência ao longo de toda a cadeia.
Ao mesmo tempo, empresas operam em um cenário marcado por transformações profundas. Eventos climáticos extremos, tensões geopolíticas, mudanças em rotas comerciais e oscilações econômicas passaram a fazer parte da realidade das cadeias globais de suprimento. O que antes era visto como exceção tornou-se uma condição permanente de operação.
Nesse contexto, resiliência deixou de ser uma característica operacional para se tornar uma competência estratégica. Não se trata apenas de reagir rapidamente a interrupções, mas de construir cadeias capazes de operar com previsibilidade mesmo em ambientes de elevada incerteza.
Entre as análises macroeconômicas e a execução das operações existe uma lacuna frequentemente ignorada. Decisões sobre comércio exterior, tributação, infraestrutura e regulação se materializam na prática por meio das cadeias logísticas. É justamente nessa conexão entre planejamento e execução que se define boa parte da competitividade de um país.
Por isso, o debate logístico não pode ser tratado apenas como uma agenda setorial. Trata-se de uma agenda estratégica para o desenvolvimento econômico. Quanto mais eficiente for a infraestrutura logística, menores tendem a ser os custos para empresas e consumidores, maior a competitividade das exportações e mais atrativo se torna o ambiente para novos investimentos.
O Brasil possui vantagens relevantes. Conta com uma base industrial diversificada, forte vocação exportadora e posição estratégica no comércio internacional. No entanto, ainda enfrenta desafios estruturais relacionados à infraestrutura, à integração entre modais, à eficiência operacional e aos custos logísticos. Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Em 2025, os portos brasileiros movimentaram o recorde de 1,4 bilhão de toneladas, enquanto a carga conteinerizada avançou mais de 7%, segundo a Antaq. Ao mesmo tempo, a dependência do transporte rodoviário permanece elevada e mais de 60% da malha avaliada pela CNT foi classificada como regular, ruim ou péssima. Segundo o ILOS, os custos logísticos do país já representam 15,5% do PIB, totalizando R$ 1,96 trilhão. Ampliar a capacidade da infraestrutura e promover maior integração entre os modais será fundamental para sustentar o crescimento econômico e aumentar a competitividade brasileira.
Tão importante quanto investir em infraestrutura é garantir previsibilidade regulatória. Projetos logísticos, portuários e de transporte exigem planejamento de longo prazo e grande volume de investimentos. Ambientes institucionais estáveis e marcos regulatórios previsíveis são fatores fundamentais para ampliar a capacidade logística do país e acelerar sua modernização.
A preparação para períodos de pico evidencia essa necessidade de planejamento. A Black Friday, por exemplo, exige organização muito antes do aumento da demanda, já que toda a dinâmica comercial e operacional associada à data se estende praticamente ao longo do mês de novembro. Empresas capazes de planejar estoques, reservar capacidade logística e coordenar diferentes etapas da operação tendem a responder com mais eficiência às oscilações do mercado e às expectativas dos consumidores.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da reconfiguração das cadeias globais de suprimentos. O redesenho dos fluxos comerciais, impulsionado por fatores geopolíticos e pela busca das empresas por maior segurança e diversificação, cria uma janela de oportunidade para o Brasil ampliar sua participação no comércio internacional.
Nesse cenário, iniciativas como o acordo entre Mercosul e União Europeia podem representar um importante catalisador para novos fluxos comerciais e investimentos. Para capturar plenamente essas oportunidades, será necessário avançar não apenas na abertura de mercados, mas também na capacidade logística necessária para sustentar o crescimento do comércio. Essa transformação também precisa ser analisada sob uma perspectiva regional. A competitividade do Brasi dependerá cada vez mais da capacidade dos países de integrar infraestrutura, comércio exterior, tecnologia e políticas voltadas à facilitação do comércio. Em um mercado global cada vez mais conectado, desenvolver soluções isoladas deixa de ser suficiente.
Ao mesmo tempo, as necessidades dos exportadores e importadores continuam evoluindo. A busca por visibilidade, controle, eficiência e previsibilidade exige uma abordagem mais integrada da logística, conectando transporte marítimo, armazenagem, distribuição terrestre, tecnologia e análise de dados. A integração entre essas etapas tende a se consolidar como um diferencial competitivo para empresas que precisam responder com agilidade às mudanças do mercado.
Os próximos anos exigirão investimentos, inovação e colaboração entre setor público e privado. Mas também representam uma oportunidade singular para fortalecer a competitividade brasileira e ampliar a relevância da região no cenário global.
O desafio não é apenas movimentar mercadorias com mais eficiência. É criar as condições para que o Brasil seja mais competitivo, mais resiliente e mais preparado para navegar um cenário macroeconômico e geopolítico cada vez mais complexo. A logística deixou de ser uma função operacional. Tornou-se uma agenda estratégica para crescimento econômico, geração de empregos, atração de investimentos e desenvolvimento sustentável.
*Ricardo Rocha, presidente da Maersk na Costa Leste (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) da América do Sul.