Clima pressiona PIB e exige avanço imediato de geração distribuída

Em artigo à CNN Infra, Daniel Maia explica como calor extremo torna urgente a energia descentralizada, e como o Brasil pode liderar essa transformação

Clima pressiona PIB e exige avanço imediato de geração distribuída
Compartilhar:

Clima pressiona PIB e exige avanço imediato de geração distribuída

Em artigo à CNN Infra, Daniel Maia explica como calor extremo torna urgente a energia descentralizada, e como o Brasil pode liderar essa transformação

*Daniel Maia

Durante décadas, a competitividade das economias foi associada à mão de obra, às matérias-primas, à escala industrial e à integração ao comércio internacional. Esses fatores continuam relevantes, mas uma nova condição passou a determinar quais países terão maior capacidade de atrair investimentos e sustentar o crescimento: a oferta de energia limpa, confiável e resiliente. 

Essa mudança decorre da combinação de duas forças. De um lado, a inteligência artificial, os data centers, a eletrificação dos transportes e a digitalização ampliam estruturalmente a demanda por eletricidade.

O Brasil, assim como outras economias, precisará expandir sua capacidade de geração para atender esse novo ciclo de consumo. Do outro, as mudanças climáticas pressionam a infraestrutura justamente nos períodos de maior demanda. A energia deixou de ser apenas um insumo operacional e se tornou um ativo estratégico para a produtividade e a segurança econômica.  

Recomendado para você

Estudo publicado em maio pela Allianz Trade, uma das maiores seguradoras do mundo, ajuda a dimensionar o problema. Segundo o levantamento, os efeitos econômicos do calor se intensificam quando as temperaturas ultrapassam 30°C.

Entre 30°C e 35°C, cada grau adicional reduz a produção por hora trabalhada em aproximadamente US$ 1,30, em paridade de poder de compra, o equivalente a cerca de 3% da média da amostra. Ao mesmo tempo, o consumo de energia cresce cerca de 1,2% por grau, principalmente devido à maior necessidade de refrigeração. 

Enquanto a produtividade cai, as despesas das empresas aumentam. Em um cenário no qual os cinco anos mais quentes registrados em cada país entre 2014 e 2024 se repetissem, em ordem crescente de intensidade, entre 2026 e 2030, a Allianz Trade calcula perdas acumuladas de 5% a 7% do PIB nas economias mais expostas. A formação de capital fixo também poderia recuar, em média, 8%. 

O Brasil aparece diretamente nesse diagnóstico. Durante os episódios mais intensos de calor observados após 2014, a demanda por energia/habitante no país superou entre 4% a 5% a média registrada entre 1991 e 2010.

Temperaturas elevadas também afetam a geração, os transformadores e as linhas de transmissão. O sistema precisa atender a uma demanda maior enquanto parte da infraestrutura opera em condições adversas. 

Esse desafio ganha relevância diante da expansão da inteligência artificial. A corrida por capacidade computacional, semicondutores, minerais críticos, data centers e energia reorganiza os fluxos globais de investimento.

Em análise divulgada em julho, a BlackRock destacou três frentes que colocam o Brasil no radar: minerais críticos e terras raras; a reorganização das cadeias globais de suprimentos; e os avanços em infraestrutura, inclusive de energia renovável. 

O país pode oferecer ativos estratégicos para essa transformação, como energia renovável, recursos naturais e segurança no fornecimento. Para isso, será necessário converter essas vantagens em capacidade instalada, confiabilidade operacional e investimentos. 

O contraste entre o cenário global e o brasileiro reforça essa oportunidade. Em julho, o Fundo Monetário Internacional reduziu de 3,1% para 3% a projeção de crescimento da economia mundial em 2026.

Para o Brasil, a revisão ocorreu na direção oposta: a estimativa avançou de 1,9% para 2,4%. Para 2027, o FMI também elevou a previsão brasileira, de 2% para 2,2%. 

O desafio, portanto, não é apenas ampliar a oferta de energia, mas fazer isso com uma infraestrutura capaz de responder às novas exigências do sistema. O país já possui uma base energética predominantemente renovável, mas a expansão da demanda exigirá novos investimentos em geração firme e flexível. A ausência de novos grandes projetos hidrelétricos com reservatórios e os custos proibitivos associados a uma expansão baseada em fontes térmicas tornam necessário buscar soluções competitivas que combinem energia renovável, armazenamento e maior capacidade de resposta do sistema.  

É nesse ponto que a geração distribuída passa a desempenhar um papel estratégico. O Brasil possui uma matriz elétrica fortemente renovável, ampla disponibilidade de sol e vento, experiência na operação de um sistema complexo e um mercado de geração distribuída que alcançou escala. O próximo passo é tornar essa infraestrutura mais flexível e preparada para responder às oscilações da oferta, da demanda e do clima. 

É nesse contexto que a geração distribuída e o armazenamento descentralizado deixam de ser apenas alternativas para reduzir a conta de luz e passam a desempenhar uma função econômica e sistêmica mais ampla. Diante do crescimento esperado da demanda, será necessário ampliar a oferta de energia com soluções competitivas e resilientes. Produzir energia perto do consumo pode diminuir perdas, aliviar a pressão sobre a rede e reduzir a dependência de grandes corredores de transmissão.

Associada a baterias, a geração distribuída permite armazenar a eletricidade produzida nos períodos de maior oferta e utilizá-la nos horários de pico ou durante instabilidades do sistema.

Além disso, esses recursos podem contribuir com serviços ancilares relevantes para a operação elétrica, como regulação de frequência e tensão, ampliando a flexibilidade e a confiabilidade da rede.  

Isso não significa substituir grandes usinas ou deixar de investir em transmissão. Um sistema seguro precisará dessas estruturas, complementadas por soluções que acrescentem flexibilidade e redundância local.

Em hospitais, indústrias, edifícios comerciais, propriedades rurais e serviços essenciais, a continuidade do fornecimento pode preservar operações, receitas e empregos. 

Os números mostram que o Brasil já construiu uma base relevante. O Estudo Estratégico de Soluções Energéticas Distribuídas, publicado pela Greener em março, aponta que o setor atraiu R$ 23,7 bilhões em investimentos e adicionou 8,8 GW de capacidade em 2025. Ao fim do ano, a geração distribuída havia alcançado 45 GW de potência instalada e beneficiava mais de 7 milhões de consumidores. 

O estudo também revela uma mudança na percepção do mercado. Sete em cada dez integradores já oferecem sistemas híbridos com baterias, ante 60% em 2024.

A confiabilidade e a segurança energética passaram a ocupar o centro da decisão de investimento. Ainda assim, apenas 24% dos integradores efetivaram ao menos uma venda em 2025. Custos, falta de financiamento, capacitação técnica e desconhecimento dos consumidores ainda limitam o avanço. 

Superar essas barreiras exige regulação clara, modelos de crédito adequados e o reconhecimento dos serviços que as baterias podem prestar ao sistema elétrico. Exige também mudar o patamar do debate brasileiro sobre geração distribuída, ainda concentrado em tarifas, subsídios e compensação de créditos, sem abranger todo o valor estratégico da descentralização. 

Para que essa transformação avance na velocidade necessária, será fundamental construir um arcabouço regulatório claro, estável e capaz de oferecer segurança aos investidores de longo prazo. Projetos de geração distribuída, armazenamento e modernização da infraestrutura elétrica exigem capital intensivo e planejamento de décadas.

A previsibilidade das regras, a definição adequada dos serviços prestados pelas baterias e a criação de mecanismos que reconheçam o valor da flexibilidade e da confiabilidade do sistema serão determinantes para atrair investimentos e acelerar a transição energética.  

Em um país continental, exposto a temperaturas elevadas e dependente de extensas linhas de transmissão, produzir e armazenar energia perto do consumo constitui um instrumento de adaptação climática, resiliência do sistema e competitividade econômica.  

A próxima fase da transição energética não será definida apenas pela quantidade de megawatts renováveis instalados, mas pela capacidade de combinar geração limpa, armazenamento, redes inteligentes e gestão eficiente do consumo.  

O Brasil já possui boa parte dos recursos que o mundo precisará. O desafio agora é transformar essa vantagem em infraestrutura resiliente. A expansão da geração renovável associada ao armazenamento não representa apenas uma oportunidade, mas uma necessidade diante do crescimento da demanda e dos novos desafios do sistema elétrico.

Avançar nessa direção será fundamental para garantir segurança energética, competitividade econômica e capacidade de adaptação às mudanças climáticas. 

Daniel Maia é CEO da Athon Energia*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião .


Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/clima-pressiona-pib-e-exige-avanco-imediato-de-geracao-distribuida/