Clima extremo exige transformação agrícola no Reino Unido

Enquanto a Europa sofre com ondas de calor consecutivas, ganha força o movimento pela agricultura resiliente ao clima com participação direta de grandes empresas e seguradoras apoiando os produtore...

Clima extremo exige transformação agrícola no Reino Unido
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Com as Ilhas Britânias prestes a registrarem o verão mais quente da história, a fazenda de gado de corte de Sam Squier, com quase 200 acres no sudeste da Inglaterra, destaca-se como um oásis verde e viçoso, cercado por campos marrons e tostados pelo sol.

Enquanto os agricultores vizinhos recorreram ao uso de ração, o rebanho Aberdeen Angus de Squier se alimenta de pastagens densas mantidas por um sistema de plantio que reteve água e melhorou a qualidade do solo.

“Este ano é um testemunho do que é possível fazer em um ano seco”, afirmou o pecuarista Squier à Reuters. “Nossa visão era melhorar a estrutura do solo e construir resiliência em nosso negócio, mitigando tanto os períodos prolongados de clima seco e quente quanto os períodos prolongados de clima úmido”, declarou ele.

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Seus bovinos, que carregam traços genéticos da raça japonesa Wagyu, pastam em uma mistura de gramíneas, ervas de raízes profundas e leguminosas, conhecidas como pastagens herbáceas.

O método inspira-se em práticas ancestrais e reflete décadas de esforços para introduzir uma agricultura resiliente ao clima, à medida que governos e reguladores em todo o mundo buscam tornar as cadeias de suprimentos menos vulneráveis.

Após anos de agricultura intensiva projetada para alimentar o máximo de pessoas da maneira mais econômica possível, o clima extremo deste ano adicionou urgência ao debate sobre se a mudança climática transformou a economia do setor.

De acordo com entrevistas realizadas pela Reuters para esta matéria com mais de 25 pessoas envolvidas no tema, bancos, grupos de seguros, companhias de saneamento, governos e grandes conglomerados alimentícios como o McDonald’s estão financiando uma mudança nas práticas agrícolas.

PERDAS FINANCEIRAS DECORRENTES DE CLIMA EXTREMO

Meteorologistas esperar declarar o verão britânico, que termina oficialmente em 31 de agosto, como o mais quente já registrado na história.

Como um todo, a Europa vivenciou este ano um aquecimento mais extremo do que qualquer outro continente, acumulando cinco ondas de calor e volumes de chuva muito abaixo da média.

Após registrar o mês de junho mais quente e o julho mais seco da história, quase três quartos da Inglaterra encontram-se oficialmente em situação de seca.

Produtores de gado de corte e de leite relataram crescimento precário das pastagens. A colheita de cereais do Reino Unido caminha para ser a pior desde o início dos registros comparáveis em 1984. E produtores de frutas e hortaliças indicam que a produção será reduzida, ecoando alertas vindos de toda a Europa.

As perdas para os agricultores da União Europeia e da Grã-Bretanha, decorrentes de quebras de safra na onda de calor de junho, podem chegar a 2,3 bilhões de euros (2,7 bilhões de dólares), segundo a Energy and Climate Intelligence Unit.

Há impactos colaterais sobre a inflação, que já havia sido impulsionada pelo aumento nos custos de energia e fertilizantes ligados ao conflito no Oriente Médio.

ENRIQUECIMENTO DE NUTRIENTES E ALTO TEOR ENERGÉTICO

Em contraste com a terra árida ao redor, as pastagens herbáceas em alguns dos campos de Squier, perto de Chelmsford, ultrapassam a altura dos joelhos mesmo após dois meses sem chuva e sem o uso de irrigação.

As gramíneas fornecem uma alimentação rica em energia. As ervas que enriquecem os nutrientes ajudam a controlar parasitas e reduzem a necessidade de medicação, enquanto as leguminosas fixam nitrogênio no solo, eliminando a dependência de fertilizantes artificiais.

As vacas são concentradas em uma pequena área onde pastam, pisoteiam a vegetação e são movidas duas vezes ao dia. Elas criam uma camada protetora sobre o solo e seu esterco ajuda a devolver sementes ao terreno, impulsionando a saúde do solo e a retenção de água. Há oito anos Squier não precisa comprar ração durante inverno.

Ele estima que o solo retenha cerca de 400 mil litros (105.700 galões americanos) a mais de água por acre do que antes de adotar a agricultura regenerativa.

Nos primeiros seis anos após a transição, a contagem estimada de minhocas saltou de 80 milhões para 680 milhões.

GRANDES EMPRESAS AJUDAM FAZENDAS A MUDAR TÉCNICAS

Subsídios governamentais para o setor ambiental auxiliaram Squier a realizar a transição. Sem fornecer detalhes precisos, ele afirmou que sua fazenda teria dificuldades para se manter viável sem esse suporte.

Ele também apontou que arranjos de propriedade e arrendamento, restrições financeiras e a resistência a mudanças representam obstáculos para outros produtores.

Uma solução cada vez mais popular é trabalhar com empresas de diversos setores, incluindo seguradoras e bancos, que têm interesse em se proteger contra as consequências de eventos climáticos extremos, à medida que se acumulam evidências de que vale a pena investir em métodos agrícolas alternativos.

“Fazendas que adotam… práticas regenerativas superam consistentemente as propriedades mais convencionais durante o estresse de seca, tanto em termos de rendimento quanto de lucratividade”, apontou Andrew Voysey, diretor de impacto da consultoria agrícola Soil Capital.

Ele citou um estudo encomendado pela organização que concluiu que as fazendas adeptas de práticas regenerativas reduziram as perdas de safra relacionadas à seca em pelo menos 10%, em cerca de 85% dos casos.

Na Grã-Bretanha, o Lloyds Bank uniu forças com a empresa de alimentos regenerativos Wildfarmed para criar o Food & Nature Resilience Fund (Fundo de Resiliência para Alimentos e Natureza) ao lado das companhias de água Severn Trent e Affinity Water e do grupo segurador AXA XL. Os fundos combinados são direcionados a agricultores para melhorar a saúde do solo.

Ben Makowiecki, diretor de sustentabilidade agrícola do Lloyds, destacou que as empresas de saneamento podem reduzir os gastos com a remoção de defensivos agrícolas dos sistemas fluviais, economizando de 4 a 6 libras esterlinas em custos a montante para cada libra investida nas fazendas. Paralelamente, as seguradoras obtêm acesso a dados para compreender melhor como a agricultura regenerativa pode mitigar o risco de inundações.

“Não podemos fazer isso de forma isolada, fazenda por fazenda”, disse ele, acrescentando que a colaboração é necessária para promover uma “mudança sistêmica na indústria”.

Outro programa é a iniciativa Routes to Regen (Caminhos para a Regeneração), que envolve empresas como McCain e McDonald’s, o supermercado britânico Waitrose, bancos como Lloyds, Barclays e NatWest, além de seguradoras como Aon e Tokio Marine Kiln.

Em vez de criar um fundo conjunto, o objetivo é oferecer aos agricultores opções de suporte. As alternativas incluem termos de empréstimo preferenciais, assessoria técnica, incentivos de empresas alimentícias, aprendizado entre pares e produtos de seguros.

Após ser lançada no ano passado com 100 agricultores, a iniciativa visa alcançar pelo menos 200 produtores este ano e expandir-se dos seis condados originais para outros seis, informou um porta-voz.

GRANDES GRUPOS DE ALIMENTOS SE ENVOLVEM CADA VEZ MAIS

“Construir um sistema alimentar mais resiliente é um desafio maior do que qualquer empresa isolada”, avaliou Jon Banner, diretor global de impacto do McDonald’s, que planeja investir pelo menos 1 bilhão de dólares na próxima década em resiliência na cadeia de suprimentos.

Para a McCain Foods, fabricante canadense de batatas congeladas, mais de 50% de sua base de fornecedores agrícolas está elegível a algum tipo de programa de apoio à transição, incluindo financiamentos, garantias, incentivos e contratos de longo prazo.

O vice-presidente global de Assuntos Externos e Sustentabilidade, Charlie Angelakos, afirmou que as preocupações com o abastecimento impulsionaram a decisão de direcionar o foco para a agricultura regenerativa, acrescentando: “Esta não é apenas uma estratégia voltada para as mudanças climáticas para nós. Vemos isso realmente como uma iniciativa de garantia de abastecimento.”

Para alguns atores do setor, o respaldo da indústria de seguros tem funcionado como o catalisador para a mudança.

Na Nestlé, a maior empresa de alimentos e bebidas do mundo em valor de mercado, o trabalho para fortalecer as cadeias de suprimentos foi impulsionado por seguradoras que oferecem taxas menores em apólices contra queda de produtividade ou desastres naturais quando aplicadas a práticas de agricultura regenerativa.

“Isso é uma ferramenta e tanto, é uma novidade”, disse à Reuters Antonia Wanner, diretora de sustentabilidade da Nestlé.

A seguradora Generali Itália também lançou este ano um projeto piloto envolvendo 500 fazendas, que vincula práticas agrícolas sustentáveis a limites mais elevados de indenização para eventos relacionados ao clima, com fases futuras que poderão incluir prêmios mais baixos.

No Reino Unido, autoridades agrícolas declararam não ser possível especificar quantas propriedades utilizam técnicas regenerativas, uma vez que o termo pode ter significados diferentes para cada produtor.

No entanto, Andy Gray é mais um exemplo de agricultor inglês que realizou a transição.

Em um dos dias mais quentes do ano, ele apontou um termômetro a laser para dois trechos de solo em sua propriedade.

Sob uma cobertura vegetal de trevo, o solo registrou 32°C (89,6°F). Em um trecho de terra nua próximo, a temperatura alcançou 51°C (123,8°F), patamar que elimina grande parte da biologia do solo de que as plantações necessitam, explicou ele.

“Se eu conseguir manter a umidade do solo por mais duas semanas na entrada da seca, isso me garante duas semanas extras de crescimento em comparação com todo mundo”, pontuou Gray, que cultiva 150 acres de milho no condado de Devon, no sudoeste do país.

“Se o campo permanece verde por mais tempo, ele produz por mais tempo.”

(Reportagem: James Davey, Simon Jessop and Alexander Marrow. Edição: Kate Holton e Barbara Lewis)



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/clima-extremo-exige-transformacao-agricola-no-reino-unido/