Casos ocorreram no norte da Alemanha. Suspeito trouxe as vítimas do Brasil. CHROMORANGE/Bilderbox/picture alliance via DW Fernando*, de 34 anos, estava em uma viagem pelo Nordeste quando decidiu abrir o aplicativo de relacionamento Romeo. Lá, ele conheceu um alemão que procurava parceiros brasileiros. Fernando foi tão bem tratado nas conversas que se encantou e ficou à vontade para compartilhar informações pessoais, como endereço e fotos. O papo fluiu e, em menos de uma semana, ele recebeu um convite para viajar à Alemanha. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Sem emprego e renda, no contexto da pandemia, nem hesitou diante da proposta. "Quem é que não quer ter a oportunidade de conhecer a Europa e tentar uma mudança de vida?", explica. Pouco tempo depois, embarcou. E a mudança de vida quase veio, mas não da forma como imaginava. Ao chegar, Fernando conta que não pode dormir nem quatro horas e diz ter sido acordado, ainda de madrugada, no frio, para trabalhar no estabelecimento industrial do suspeito. Ele alega que começou a ser forçado a trabalhar, sem receber por isso, e a manter relações sexuais não consentidas. Diz que foi ameaçado de morte e precisou fugir. Agora no g1 O relato de Fernando não é exclusivo. Cinco brasileiros denunciaram à DW terem passado pela situação, que estaria acontecendo há pelo menos oito anos. Sempre envolvendo o mesmo suspeito alemão. "Tenho um cliente que acompanho desde 2021, que chegou a entrar com um processo criminal por lesão corporal e estupro. Mas, de lá para cá, mais de cinco pessoas já entraram em contato comigo pedindo ajuda", conta Delaine Kühn, advogada brasileira que atua na Alemanha. Recrutamento online Os homens com quem a DW conversou relataram uma dinâmica semelhante. Eles alegam ter conhecido o alemão pelos aplicativos de relacionamento Romeo, Grindr ou Tinder. Dizem que o suspeito coloca a localização dele no Brasil, em cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza e Natal. No início, a conversa seria sempre muito afetuosa, a ponto de convencê-los a enviarem fotos íntimas e imagens de família e amigos. Esse conteúdo seria usado depois, segundo as vítimas, para fazer ameaças e chantagens. Em seguida, vem o convite para viajar à Alemanha. O suspeito emite passagens, faz apólice de seguros e manda até carta-convite, para facilitar a passagem pelas autoridades migratórias, na qual ele se responsabiliza pela estadia dos convidados. A DW teve acesso a oito cartas enviadas pelo suspeito para brasileiros entre os anos de 2018 e 2025. Uma vez na Alemanha, as vítimas alegam ser obrigadas a trabalhar sem receber salário na empresa do alemão, e dizem ter sofrido violência física, sexual e psicológica, com casos de ameaças de morte e até tentativas de homicídio. Do sonho ao pesadelo Fernando diz que no primeiro dia após a viagem estranhou o comportamento do suspeito, que teria adotado um tom autoritário. Em seguida, diz ter sido obrigado a ter relações sexuais sem preservativo. No terceiro dia, percebeu que havia caído em uma cilada e, a partir daí, tentou fugir algumas vezes. Numa delas, diz ter sido vítima de uma tentativa de homicídio. Fernando diz que correu até a casa de uns vizinhos e conseguiu ajuda. Com a polícia, voltou ao imóvel, pegou o passaporte e foi para uma estação de trem próxima. "Ele começou a me mandar mensagem, dizer que eu tinha que voltar e pagar a ele 1,5 mil euros", detalha. Da Alemanha, Fernando viajou de trem para outro país europeu e, com ajuda de amigos, voltou ao Brasil. Em mensagens trocadas em uma rede social, o suspeito chega a dizer a Fernando que há no jardim da casa dele um cemitério de pessoas que ele teria matado. "Arranquei o coração de tudo o que estava vivo e comi fresco. Só você me escapou", diz um trecho das mensagens escritas pelo suspeito. Outro brasileiro que esteve na casa pouco antes de Fernando também relatou ter sofrido ameaças de morte. Alceu*, de 35 anos, costuma ficar nervoso e evita falar sobre o assunto. Até hoje, só compartilhou o que viveu com um amigo na Alemanha. Ele diz que conheceu o suspeito no aplicativo Tinder e que, desde o início, o alemão fez várias promessas e chegou até a ir ao Brasil. "Foi muito bom. Eu gostei dele de verdade. Mas naquele momento já começou uma pressão para a gente namorar", conta. Meses depois, Alceu recebeu uma passagem para viajar à Alemanha. "Ele prometeu que eu ia pra lá, ia ser feliz e conseguir trabalho", lembra. Ao chegar, porém, o cenário foi outro. "Esse homem mudou totalmente comigo. Me jogava no frio, na neve, me botava numa casa sem comida. Era horrível. Me batia", conta Alceu, que também diz ter sido obrigado a ter relações sexuais não consentidas. Ele conta que chegou a fugir até a casa de um vizinho, que demonstrou já conhecer a situação, mas acabou voltando. Numa viagem para outro país, diz ter sofrido uma tentativa de homicídio. "Lá ele surtou, queria que eu transasse com outros caras. Eu disse que não, ele me chamou de vagabunda. Eu abri a porta e saí do carro, aí ele tentou passar com o carro por cima de mim." Alceu diz ter conseguido pedir ajuda a uma brasileira que vive na Alemanha e voltou ao Brasil. Ao chegar, procurou a Polícia Federal para denunciar o caso. Ele também foi um dos brasileiros que procuraram a advogada Delaine Kühn. "Eu ficava recebendo mensagens em rede social de pessoas dizendo que estavam sofrendo na Alemanha, que acharam fotos minhas no computador dele", conta Alceu. Vazamentos de imagens íntimas e fakes em redes sociais Pelo menos três homens relataram à DW que tiveram imagens íntimas espalhadas pelo suspeito em grupos de família e até do trabalho depois de brigas e tentativas de fuga. Alguns também alegam, como é o caso de Alceu, que tiveram contas falsas em seu nome criadas em aplicativos de relacionamento pelo suspeito. Nessas contas, seriam expostas informações íntimas sobre a aparência física das vítimas, além de vinculá-las à prostituição. Alberto*, de 37 anos, diz ter desenvolvido ansiedade diante do que passou há cerca de oito anos quando conheceu e morou com o suspeito. "Ele me tratava mal. E eu sempre tentando me reaproximar, entender. Pensava que era questão de idioma, que ia mudar", afirma. Numa das brigas, o suspeito teria usado um aparelho de celular que havia dado de presente a Alberto para se comunicar com a família e amigos dele. "Ele tomou o aparelho e começou a mandar fotos íntimas minhas para todos os meus amigos e familiares. Eu fiquei desnorteado", diz. Casos na América Latina A procura do suspeito por novas vítimas em aplicativos de relacionamento não estaria restrita ao Brasil. A DW teve acesso a imagens de documentos relacionados a quatro homens, sendo um do Peru, dois da Colômbia e um da Venezuela, que também teriam ido à Alemanha a convite do suspeito. Uma fonte ligada a um aeroporto no norte da Alemanha diz já ter sido procurada, durante o expediente, também por um panamenho com os mesmos relatos dos brasileiros e pedindo ajuda para trocar a data de volta da passagem. Os documentos, como passaportes e cartas-convite, aos quais a DW teve acesso, teriam sido encontrados dentro da casa do alemão pelos brasileiros. "Como eu sempre arrumava a casa, encontrei vários documentos. Então eu comecei a ler a maioria desses documentos e tirei foto de tudo, caso fosse necessário", conta Flávio*, de 32 anos, outra vítima que teria conhecido o alemão no aplicativo Grindr. Investigações em curso Algumas pessoas com quem a reportagem conversou conseguiram voltar ao Brasil e registraram boletins de ocorrência na Polícia Federal e na Polícia Civil. Outras também alegam ter procurado delegacias policiais do norte da Alemanha, onde os casos estariam acontecendo. A advogada Delaine Kühn diz que chegou a acompanhar pelo menos um caso de um brasileiro que casou com o alemão denunciado nesta reportagem e entrou com um processo de divórcio. Ela também acompanhou um processo criminal com denúncia de lesão corporal e estupro, além de uma determinação de medida protetiva. "Conseguimos que ele fosse condenado em primeira instância [no caso do estupro], mas ele entrou com recurso no ano passado. E nosso cliente, que já tinha problemas, naturalmente, de trauma e tudo mais, por causa da situação, não conseguia lembrar dos fatos exatos. Então, ele foi absolvido e o nosso cliente ainda teve que pagar todas as custas processuais", conta. Segundo Kühn, muitas das vítimas são pessoas sem condição de pagar advogados ou inaptas a receber ajuda estatal para entrar com processos, então muitas denúncias nunca chegaram aos tribunais alemães. "Ele traz sempre homens jovem do Brasil, de 25 a 30 anos", diz. "Geralmente, são pessoas que não falam outro idioma, que são mais vulneráveis", acrescenta Flávio. Procurada pela reportagem, a Polícia Federal se recusou a confirmar ou comentar o caso. Documentações consulares trocadas entre a Secretaria de Estado das Relações Exteriores do Itamaraty e a embaixada brasileira em Berlim, porém, indicam que, desde agosto de 2025, há um pedido de cooperação jurídica em matéria penal entre o Brasil e a Alemanha relacionado ao suspeito. Já a polícia alemã alegou que, por motivos de proteção da privacidade, não poderia fornecer informações sobre investigações. A polícia da Colômbia também afirmou que não comenta esses tipos de casos. A DW entrou ainda em contato com as polícias nacionais do Peru e da Venezuela, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Armadilha nas redes sociais O uso de redes sociais, segundo o relatório o Relatório de Dados sobre Tráfico de Pessoas, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), foi no ano passado a forma predominante de aliciamento de brasileiros para tráfico humano com fins de exploração sexual. O porta-voz do aplicativo Romeo afirmou que a empresa não foi procurada por autoridades alemãs ou brasileiras sobre os casos, mas que perfis podem ser denunciados diretamente na plataforma em caso de suspeita de atividade criminosa. A denúncia é analisada pela equipe de segurança do aplicativo. Caso a suspeita seja confirmada, a conta é banida permanentemente. "Dependendo das circunstâncias e da gravidade do caso, também podemos denunciar às autoridades competentes na Holanda, que, por sua vez, podem coordenar-se com outros países", afirmou. O Tinder alegou que identificou a conta do suspeito e a baniu do aplicativo, estendendo o banimento para impedir que ela use outros aplicativos do Match Group. "Temos tolerância zero ao uso de nossa plataforma para facilitar o tráfico de pessoas, trabalho forçado ou qualquer outra atividade criminosa. Quando identificamos tal conduta, seja por meio de nossos próprios sistemas ou de denúncias de usuários, tomamos medidas", afirmou um porta-voz da empresa. Também procuramos a Grindr, mas não obtivemos retorno. A DW entrou ainda em contato com o suspeito e a sua advogada, mas não recebeu retorno até a publicação da reportagem. Entre as vítimas que já denunciaram o caso às autoridades brasileiras e alemãs, a sensação é de impunidade. Alceu tem se articulado com outros brasileiros e alega que decidiu denunciar para interromper um ciclo. "Esse homem não pode ficar solto. Que isso seja um alerta para ele parar. " *Os nomes foram alterados pela reportagem para preservar os entrevistados.
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