Você suspeita que passar horas todos os dias em frente à televisão não está fazendo nenhum bem ao seu cérebro? Um novo estudo sugere que você pode estar certo.
Pesquisadores descobriram que pessoas que relataram assistir televisão com mais frequência na meia-idade apresentavam volumes cerebrais menores décadas depois em áreas envolvidas na linguagem e no pensamento. Por outro lado, passar muito tempo sentado no trabalho foi associado a medidas cerebrais mais saudáveis.
O que as pessoas devem pensar dessas descobertas? Isso significa que chegou a hora de desligar a televisão de vez? Para ajudar a responder a essas perguntas, conversei com a Dra. Leana Wen, especialista em bem-estar da CNN, médica de emergência e professora associada clínica da Universidade George Washington. Ela já atuou como comissária de saúde de Baltimore.
Recomendado para você
Escondido em caminhão e voo secreto: como foi a operação para Trump deixar a Turquia após ameaça do Irã
EUA apresentam novo Air Force One, presente do Catar a Trump O...
2026-08-11 05:30:18Horizonte Digital: Fortaleza oferta mais de 300 vagas em cursos de tecnologia para jovens
Tecnologia, agronegócio, saúde e cidades inteligentes são boas...
2026-08-11 05:03:14Fotógrafo espera quase 7 horas para registrar leoparda devorando impala em cima de árvore na África do Sul
Fotógrafo espera quase 7h para registrar leoparda devorando im...
2026-08-11 05:02:39CNN: Assistir televisão está realmente associado a mudanças no cérebro anos depois?
Dra. Leana Wen: Foi isso que este estudo descobriu, embora seja importante entender exatamente o que os pesquisadores mediram e quais conclusões podemos tirar disso.
Investigadores analisaram dados de mais de 1.700 participantes em um estudo de longa duração financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Os participantes, de meia-idade, relataram com que frequência assistiam à televisão e quanto tempo passavam sentados no trabalho durante o ano anterior. Em relação ao tempo gasto assistindo à televisão, eles responderam a um questionário padronizado, classificando seus hábitos em cinco categorias: nunca, raramente, às vezes, frequentemente ou muito frequentemente. Os participantes tinham entre 45 e 64 anos no início do estudo, com uma média de 53 anos. Mais de duas décadas depois, eles foram submetidos a exames de ressonância magnética cerebral.
Pessoas que relataram assistir televisão “com muita frequência” apresentavam volumes menores em diversas regiões cerebrais, incluindo áreas envolvidas no controle cognitivo e na linguagem, bem como áreas especialmente vulneráveis nos estágios iniciais da doença de Alzheimer. Esses telespectadores também apresentavam mais hiperintensidades da substância branca, alterações observadas em ressonância magnética que refletem lesões nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro e têm sido associadas ao declínio cognitivo e à demência.
CNN: Uma das descobertas mais surpreendentes foi que a atividade sedentária em outro contexto — no trabalho — não estava ligada às mesmas alterações cerebrais. Por que assistir televisão seria diferente de ficar sentado no trabalho?
Wen: Essa descoberta interessante sugere que nem todas as atividades sedentárias são iguais. Assistir à televisão é uma atividade cognitivamente passiva, porque os telespectadores estão principalmente recebendo informações em vez de processá-las ativamente. Ficar sentado no trabalho geralmente envolve demandas mentais muito diferentes. Você pode estar respondendo a e-mails, trabalhando em projetos e interagindo com colegas. Essas atividades ativam múltiplas redes cerebrais, mesmo que você esteja sentado.
O estudo não prova que atividades mentalmente estimulantes protegem o cérebro, mas as descobertas estão de acordo com um crescente corpo de pesquisas que sugerem que o envolvimento cognitivo ajuda a reduzir o risco de demência. Estudos anteriores também encontraram diferenças entre comportamentos sedentários passivos, como assistir televisão, e comportamentos mais mentalmente ativos, incluindo resolver quebra-cabeças e manter-se mentalmente engajado durante o trabalho.
CNN: Este estudo comprova que assistir televisão causa alterações cerebrais negativas?
Wen: Não. Este foi um estudo observacional, o que significa que pode identificar associações, mas não pode estabelecer causa e efeito.
É possível que as pessoas que assistiam mais televisão diferissem daquelas que assistiam menos em aspectos que os pesquisadores não conseguiram explicar completamente, apesar de já terem ajustado diversos fatores, incluindo idade, escolaridade, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, diabetes, hipertensão e índice de massa corporal.
É possível também que alterações sutis na saúde cerebral tenham influenciado os hábitos das pessoas anos antes da realização dos exames de ressonância magnética, de modo que pessoas com alterações na substância cerebral fossem mais propensas a passar seus dias assistindo televisão do que os participantes que não apresentavam tais alterações.
Ainda assim, este foi um estudo bem conduzido que acompanhou os participantes por mais de duas décadas e utilizou exames detalhados de ressonância magnética cerebral em vez de testes subjetivos. Embora as conclusões não devam ser interpretadas como prova de que a televisão prejudica o cérebro, elas corroboram as crescentes evidências de que o comportamento passivo e sedentário prolongado não é ideal para a saúde cerebral a longo prazo.
CNN: Os pesquisadores ajustaram os dados levando em consideração a atividade física. Isso significa que ir à academia não é suficiente para compensar as horas gastas assistindo à televisão?
Wen: É um ponto interessante, porque sabemos que manter-se fisicamente ativo ajuda a reduzir o risco de demência. Mas o exercício regular não elimina todos os outros fatores de risco.
Neste estudo, a associação entre assistir muita televisão e alterações cerebrais persistiu mesmo após os pesquisadores considerarem a atividade física. Em outras palavras, alguém que se exercita regularmente, mas também passa muitas horas por dia assistindo televisão, ainda apresenta riscos adicionais de piora da saúde cognitiva devido ao seu comportamento sedentário passivo. Manter-se fisicamente ativo e limitar esse tipo de comportamento sedentário passivo prolongado parecem ser medidas importantes.
CNN: As pessoas deveriam parar de assistir TV? E quanto a outras formas de uso passivo de telas, como navegar em um celular ou tablet?
Wen: Não acho que este estudo signifique que as pessoas devam parar completamente de usar telas. Assistir a um evento esportivo, acompanhar uma série favorita ou ir ao cinema pode ser divertido e relaxante, e esses passatempos nos ajudam a nos conectar com a família e os amigos, o que é bom para a nossa saúde em muitos níveis.
Na minha opinião, a principal lição é refletir sobre quanto tempo é gasto em atividades passivas em frente a telas e o que essas atividades podem estar substituindo. Se várias horas de televisão ou navegando em redes sociais estão substituindo exercícios físicos, interações sociais presenciais, leitura ou outras atividades mentalmente estimulantes , isso não é ideal para a saúde do cérebro.
É importante lembrar que nem todo tempo gasto em frente à tela é igual. Por exemplo, participar de uma aula de idiomas online, na qual você aprende uma nova habilidade e se comunica ativamente com outras pessoas, estimula o cérebro de maneira diferente de assistir passivamente a programas de TV ou navegar sem rumo pela internet. Além disso, é sempre uma boa ideia evitar ficar sentado por longos períodos sem interrupção, levantando-se periodicamente para alongar e caminhar um pouco.
CNN: Além de reduzir o tempo passivo gasto em frente às telas, quais são as maneiras comprovadas de proteger a saúde do cérebro à medida que envelhecemos?
Wen: A atividade física regular é uma das intervenções mais eficazes comprovadas por pesquisas. O mesmo se aplica ao controle da pressão arterial, ao tratamento de doenças crônicas como o diabetes, a evitar o tabagismo, à limitação do consumo excessivo de álcool, a uma boa noite de sono e à manutenção de um peso saudável. Uma alimentação ao estilo mediterrâneo, rica em frutas, verduras, grãos integrais, leguminosas, nozes, peixes e gorduras saudáveis, também tem sido associada a uma melhor saúde cerebral.
Manter o contato social também é essencial, assim como tratar a perda auditiva, a depressão e outros fatores que podem impedir as pessoas de passar tempo com seus entes queridos. Nenhuma atividade isolada pode garantir proteção contra a demência, mas a combinação de escolhas cotidianas, incluindo como passamos nosso tempo livre , pode fazer a diferença ao longo de décadas.