Apesar de tarifaço, setor automotivo ainda vê oportunidades nos EUA
Maioria das montadoras prefere pagar tarifas a gastar bilhões na construção de novas instalações
A Toyota anunciou na semana passada que faria algo que outras montadoras tem relutado em fazer: transferir parte da produção do México para os Estados Unidos.
A montadora japonesa passará a fabricar metade de suas picapes médias Tacoma — o modelo mais vendido da companhia — em uma fábrica ampliada em San Antonio, onde já produz a picape de porte grande Tundra e o SUV Sequoia. A empresa também continuará fabricando a Tacoma no México.
O presidente Donald Trump celebrou a mudança para solo americano, classificando-a como "algo muito importante" e uma prova de que "as tarifas estão funcionando".
Recomendado para você
Ucrânia amplia ataques com drones contra setor energético da Rússia
Ucrânia afirma ter atingido 14 navios russos com drones em nova ofensi...
2026-07-12 12:05:11Prato feito: Preço da refeição sobe no Brasil apesar de alívio na inflação
Levantamento aponta que média nacional é de R$ 31,90 e valor varia de ...
2026-07-12 07:30:33Seria possível 'desarmar' um super El Niño com nuvens artificiais? Ciência testa a ideia, ainda distante da prática
O que é o El Niño e como ele pode afetar o seu dia a dia Um gr...
2026-07-12 05:00:43A Toyota não apontou a política tarifária como o fator determinante para a decisão.
"Embora sejamos afetados pela evolução das políticas comerciais, nossos investimentos são decisões de longo prazo — abrangendo várias décadas — baseadas em objetivos estratégicos mais amplos", declarou a empresa à CNN.
Além disso, mais de um ano após o governo Trump anunciar tarifas abrangentes sobre o setor automotivo para incentivar a construção de novas fábricas americanas, a iniciativa da Toyota representa a exceção, e não a regra.
Transferir a produção para os EUA é difícil
Poucas montadoras anunciaram planos de transferir a produção para os Estados Unidos. A maioria prefere pagar tarifas a gastar bilhões na construção de novas instalações — e as linhas de produção que estão indo para os EUA estão sendo alocadas em fábricas já existentes.
46% dos carros comprados por consumidores dos EUA no ano passado eram importados, segundo a Mobility Global — uma queda leve em relação aos 47,7% registrados em 2024. Parte dessa redução deveu-se ao fato de as montadoras terem reduzido as vendas de veículos importados de menor preço, como o Nissan Versa.
No entanto, há custos elevados e muitas incertezas para que as montadoras realizem mudanças abrangentes nas estruturas das fábricas.
"É um compromisso enorme (construir uma fábrica), e fazer isso por impulso beiraria a loucura", disse Ivan Drury, diretor de insights do site de compra de automóveis Edmunds. "Portanto, a atitude mais segura é não fazer nada. Seguir em frente, mesmo com esse aumento de custos (tarifários)", continuou.
Além disso, uma das formas de as montadoras manterem os custos baixos está sob ameaça: o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), o tratado comercial firmado durante o primeiro mandato de Trump.
Esse acordo está agora sujeito a renegociação, e Trump sugeriu, no mês passado, que desistiria dele caso não houvesse mudanças substanciais que beneficiassem as empresas americanas. Isso assusta as montadoras, que passaram a depender da livre circulação de peças pelas fronteiras dos EUA com o Canadá e o México.
"Pedimos uma solução rápida e duradoura que garanta condições equitativas de concorrência e proporcione a segurança de longo prazo necessária para investimentos automotivos de capital intensivo", afirmou a American Automakers Policy Council, associação que representa a General Motors, a Ford e a Stellantis.
As tarifas estão reduzindo os lucros. A Toyota pagou US$ 8,4 bilhões em taxas alfandegárias no ano fiscal mais recente, o que fez com que os resultados na América do Norte passassem de lucro para prejuízo. A General Motors pagou US$ 3,1 bilhões em tarifas em 2025, e a Ford pagou US$ 1 bilhão.
Isso não quer dizer que as tarifas tenham sido totalmente ineficazes em incentivar as empresas a trazer a produção de volta para os EUA. Além da Toyota Tacoma, a General Motors anunciou no ano passado que transferiria a montagem de dois SUVs que eram produzidos no México. A empresa também deixará de importar SUV Buick da China e fabricará um modelo substituto nos EUA.
No entanto, esses veículos serão produzidos em uma fábrica já existente no Kansas e em outra no Tennessee. Essas instalações tinham capacidade ociosa depois que a GM reduziu os investimentos na produção de veículos elétricos, após Trump e os republicanos no Congresso terem encerrado o apoio governamental a esse tipo de veículo.
Para a Toyota, existem também razões comerciais, além da política tarifária, para transferir a produção para San Antonio, afirmou Patrick Anderson, economista de Michigan e especialista no setor automotivo.
“A Toyota tem obtido grande sucesso na expansão de negócios de picapes nos Estados Unidos, e a unidade de produção em San Antonio já é o pilar dessa operação no país”, destacou ele. “Portanto, faz todo o sentido, do ponto de vista empresarial, consolidar as operações existentes”.
E, mesmo com tarifas tão elevadas, não faz sentido para as montadoras transferir a produção com base em políticas comerciais que podem mudar muito mais rápido do que o tempo necessário para construir uma fábrica.
Especialistas afirmam que as montadoras levariam anos e gastariam bilhões para construir novas fábricas nos EUA — ou ampliar as existentes — em quantidade suficiente para substituir os veículos importados, especialmente considerando que os sucessores de Trump podem reverter as políticas com a mesma facilidade. Os custos de mão de obra nos EUA também são mais altos do que no México e em alguns outros países.
A demanda também está aquecida — o volume total de vendas de veículos cresceu 2% no ano passado, mesmo com os preços dos carros em níveis recordes —, o que incentiva as montadoras a manter o fluxo de importações.