Análise: Vizinhos do Irã constroem alternativas após bloqueio em Ormuz
Estratégia de Teerã aparenta vantajosa, no momento, mas pode ser danosa a longo termo
As guerras frequentemente terminam em um lugar diferente de onde começaram.
O conflito atual com o Irã tem sido marcado por objetivos mal definidos e variáveis, desde aspirações de mudança de regime até metas mais específicas de reduzir as capacidades nucleares e militares iranianas.
Após quase seis meses, a situação evoluiu para algo totalmente diferente: uma disputa sobre quem controla o Estreito de Ormuz e, com ele, uma das artérias mais importantes para a energia global.
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2026-07-25 08:19:13O Irã demonstrou tanto a capacidade quanto a disposição de atacar navios comerciais que transitam pelo estreito, a menos que a navegação ocorra sob as regras ditadas por Teerã.
Os EUA, e grande parte do mundo, incluindo todos os Estados do Golfo adjacentes ao estreito, consideraram isso, com razão, inaceitável.
O objetivo estratégico agora concentra-se cada vez mais em uma única questão: o Estreito de Ormuz permanecerá uma via navegável internacional, ou o Irã adquirirá a capacidade de determinar quem passa por ele e sob quais condições?
Ceder o controle ao Irã proporcionaria ao regime dezenas de bilhões de dólares anuais em taxas de trânsito, além da capacidade de controlar o fluxo de energia para o restante do mundo. O Irã controlaria, na prática, o termostato da economia global.
Curto prazo: vantagem para o Irã
O Irã não está bloqueando fisicamente o estreito. Ele está disparando drones e mísseis de cruzeiro contra navios civis. Isso é suficiente para paralisar o comércio e derrubar uma premissa de longa data: a de que o Estreito de Ormuz permaneceria uma rota internacional mesmo em períodos de conflito.
Durante a guerra de doze dias em junho de 2025, por exemplo, incluindo os ataques dos EUA às instalações nucleares iranianas, Ormuz permaneceu intocado.
Essa premissa de longa data foi agora rompida, apresentando um desafio enorme para os EUA e para o mundo.
Eu trabalhava na Casa Branca quando o grupo Houthi, um aliado do Irã, utilizou mísseis e drones iranianos para fechar o Mar Vermelho, empregando as mesmas táticas no Estreito de Bab Al-Mandeb.
Os EUA formaram uma coalizão e lançaram uma campanha aérea para reduzir as capacidades dos Houthis, mas não conseguimos impedir todos os lançamentos nem restaurar a confiança das empresas de transporte comercial para realizar a travessia. Os Houthis só cessaram os disparos após chegarem a um acordo com Washington.
Hoje, os EUA enfrentarão o mesmo problema: uma missão demorada, cara e extremamente difícil de impedir que o Irã ataque com drones e mísseis de cruzeiro disparados a mais de 1.000 quilômetros de distância. É a clássica missão de procurar uma agulha no palheiro.
Só que este problema é muito pior. O estreito de Bab Al-Mandeb responde por 10% do transporte marítimo global. Isso é suficiente para elevar um pouco a inflação. O Estreito de Ormuz responde por 20% do comércio global de energia.
Isso é suficiente, como disse o presidente Donald Trump antes de anunciar um acordo de curta duração com o Irã, para desencadear uma "catástrofe econômica".
Longo prazo: vantagem para os EUA
A estratégia do Irã é elevar os preços da energia em nível global para pressionar a Casa Branca a ceder totalmente o controle do estreito. No entanto, suas táticas, com ataques a navios civis e ações por todo o Golfo, estão gerando uma reação de longo prazo que acabará jogando contra o próprio país.
Em todo o Oriente Médio, governos e empresas de energia estão acelerando a construção de oleodutos, portos e corredores de transporte projetados para movimentar petróleo, gás e mercadorias contornando Ormuz, em vez de passar por ele. Os EUA agora apoiam diretamente essas iniciativas.
O estreito continuará sendo importante. Mas, pela primeira vez em décadas, a região está investindo seriamente em um futuro no qual ele talvez não seja mais indispensável.
O mapa energético do Oriente Médio está sendo redesenhado especificamente para reduzir o poder de influência do Irã sobre esse ponto de estrangulamento estratégico.
O novo mapa
Vamos analisar os detalhes. Antes da guerra, cerca de 23 milhões de barris de produtos energéticos passavam diariamente pelo Estreito de Ormuz. Ele era o único ponto de gargalo para as exportações do Iraque, Kuwait, Catar e Bahrein, e a principal rota de trânsito para produtos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.
Agora, os governos estão planejando um futuro no qual Ormuz possa fechar periodicamente ou permanecer comercialmente pouco confiável. Isso muda a equação. Em vez de um único ponto de estrangulamento indispensável, os Estados estão investindo em um sistema de múltiplas rotas de exportação capazes de reduzir gradualmente a influência do Irã.
Esses projetos não substituirão todos os barris que transitavam por Ormuz antes da guerra, mas reduzirão significativamente a importância do estreito.
O Goldman Sachs estimou recentemente que rotas alternativas, existentes ou novas, poderiam, até o final de 2028, transportar cerca de 60% do petróleo normalmente escoado pelo estreito.
Considere os seguintes projetos, para mudar este mapa, que estão sendo iniciados em decorrência da guerra:
- Arábia Saudita (9 milhões): A última vez que o Irã contestou o controle do Estreito de Ormuz foi há quatro décadas, durante a Guerra Irã-Iraque. Naquela ocasião, a Arábia Saudita decidiu investir bilhões de dólares em um oleoduto "leste-oeste" que atravessa seu território, ligando as províncias produtoras de petróleo ao Mar Vermelho. Durante a crise atual, esse oleoduto proporcionou alívio ao mercado global ao permitir a exportação de cerca de 7 milhões de barris por dia. Desde então, a Arábia Saudita anunciou a expansão desse sistema de oleodutos para adicionar entre 1 e 2 milhões de barris diários até o final de 2029, elevando a capacidade total de escoamento que contorna Ormuz para até 9 milhões de barris por dia.
- Emirados Árabes Unidos (3,6 milhões): Os Emirados Árabes Unidos também possuem um porto e um oleoduto ao sul de Ormuz, que atualmente fornecem até 1,8 milhão de barris aos mercados globais. O país anunciou um programa de expansão em larga escala para dobrar essa capacidade até o final de 2027, atingindo um total de 3,6 milhões de barris por dia.
- Iraque-Síria (2 a 3 milhões): Na semana passada, o novo primeiro-ministro do Iraque visitou a Casa Branca e anunciou investimentos de dezenas de bilhões de dólares por parte de empresas petrolíferas dos EUA, em coordenação com a Síria, para reformar linhas inativas e integrar novas linhas destinadas a exportar petróleo iraquiano e kuwaitiano para o Mediterrâneo. O enviado de Trump para o Iraque e a Síria, Tom Barrack, afirmou que os projetos visam tornar Ormuz algo "irrelevante" (ou secundário), com previsão de conclusão por volta de 2030. Eu não iria tão longe, mas o redirecionamento dos vastos recursos energéticos do Iraque para o oeste, em vez de para o sul através de Ormuz, representaria uma mudança fundamental no cenário.
- Iraque-Turquia (1 milhão): Os projetos no Iraque incluem a reforma deste oleoduto existente, porém frequentemente inativo, que vai de Kirkuk, no Iraque, até Ceyhan, na costa turca do Mediterrâneo. Embora tenha sido prejudicada durante anos por disputas políticas entre Ancara e Bagdá, a nova demanda global está novamente colocando essa rota de exportação em destaque como um recurso essencial e lucrativo.
- Iraque-Jordânia (1 a 2,5 milhões): O governo do Iraque também está acelerando os planos para um oleoduto com destino à Jordânia. Esse oleoduto conectaria Basra a Haditha, no oeste do Iraque, com uma ramificação para o porto jordaniano de Aqaba, permitindo a exportação via Mar Vermelho para os mercados globais. Embora o assunto já venha sendo discutido há muito tempo, os governos da Jordânia e do Iraque anunciaram, no início deste mês, planos para acelerar o desenvolvimento de projetos destinados a contornar o Estreito de Ormuz, em resposta à crise na região.
Tudo isso é apenas o começo, à medida que esses e outros projetos para evitar a passagem por Ormuz saem do papel. A Arábia Saudita também discute uma rota ao norte para o escoamento de cargas até Aqaba ou, mais ao norte, através da Turquia, com destino ao Mediterrâneo.
Não é algo inédito
Existe um precedente histórico importante. Após o colapso da União Soviética, os EUA propuseram um ambicioso projeto de oleoduto que atravessaria o Azerbaijão, a Geórgia e a Turquia até chegar ao Mediterrâneo.
Conhecido como projeto BTC (Baku-Tbilisi-Ceyhan), ele exigiu bilhões de dólares em investimentos e anos de diplomacia americana constante ao longo de diferentes administrações.
Inicialmente, muitos especialistas descartaram o BTC, considerando-o ambicioso demais (estende-se por mais de 1.600 quilômetros), caro demais e politicamente inviável. A história provou o contrário.
Uma vez concluído em 2006, o BTC reduziu permanentemente a dependência de rotas de exportação controladas pela Rússia e demonstrou que a infraestrutura energética pode remodelar a política global tanto quanto as alianças militares.
Em contrapartida, a Europa fez a escolha estratégica oposta, mantendo-se fortemente dependente da energia e dos gasodutos russos. Mais tarde, Moscou transformou essa dependência em uma ferramenta de pressão, uma lição que os Estados do Golfo parecem determinados a não repetir em relação ao Irã.
Direção estratégica
Essas novas redes de parcerias e oleodutos enfrentarão desafios e contratempos. O Irã pode atacar oleodutos fixos e atrasar a construção. Podem ocorrer atrasos nas obras, entraves burocráticos ou dificuldades de financiamento. No entanto, em conjunto, essas iniciativas revelam uma direção estratégica improvável de ser revertida.
As capitais do Oriente Médio, que antes presumiam que Ormuz permaneceria aberto e confiável, agora se preparam para a possibilidade de que isso não aconteça. Rotas de exportação resilientes e redundantes tornaram-se imperativos de segurança nacional, impulsionados por lideranças e fundos soberanos, com apoio e assistência dos EUA.
Novo destino: redundância
A estratégia do Irã depende, em última análise, da premissa de que o mundo não possui alternativa prática ao Estreito de Ormuz. O país pode acabar descobrindo que, ao transformar a passagem em uma arma, acabou convencendo seus vizinhos a construir uma região que não depende mais dela.
Esse é um desfecho que Washington — e seus aliados — deveriam ajudar ativamente a concretizar.