Análise: Trump assume novo papel de destaque em convenção republicana
Presidente busca deixar marca duradoura enquanto partido começa a debater futuro após sua saída
Ao longo de uma década, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se a figura central de seu partido — uma força singular em torno da qual giraram seus comícios, convenções e identidade política.
Nesta semana, os republicanos levam essa devoção a um novo patamar, reunindo-se no Texas — o "Estado da Estrela Solitária" — a pedido de Trump, para uma convenção de meio de mandato sem precedentes, idealizada por ele e para celebrá-lo.
Trump marcará presença nas duas noites do evento e acompanhará, de um camarote, a demonstração de lealdade por parte de líderes partidários e aliados.
Recomendado para você
Dia do Profissional de Administração: CRA-PR destaca papel estratégico da categoria
Celebrado em 9 de setembro, o Dia do Profissional de Administração mar...
2026-09-09 12:24:40TRE multa Soldado Sampaio em R$ 5 mil por propaganda antecipada durante convenção em Roraima
Convenção que oficializou o nome de Soldado Sampaio como candi...
2026-09-09 12:19:20'Sonhei com esse momento todos os dias', afirma o novo Papai Noel do Natal Luz de Gramado
César Fernando Freitas Silveira, de Porto Alegre, foi o venced...
2026-09-09 12:18:53No entanto, paira sobre o que pode ser a celebração mais explícita de Trump pelo partido até hoje uma realidade cada vez mais inevitável: este também pode ser um dos últimos eventos do gênero.
Daqui a 55 dias, os eleitores decidirão quem controlará o Congresso durante os dois anos finais da presidência de Trump; sua impopularidade gera fortes ventos contrários para o partido (levando, inclusive, alguns republicanos a não comparecerem às festividades em Dallas).
Logo depois, as atenções inevitavelmente se voltarão para os republicanos que disputam a sucessão, enquanto Trump enfrenta, pela primeira vez, uma longa contagem regressiva para deixar o poder.
"É difícil imaginar a política sem ele", disse Matt Schlapp, presidente da União Conservadora Americana. "Mas a realidade é que teremos de descobrir como lidar com isso."
Entrar em praticamente qualquer grande encontro conservador na última década significava ingressar em um mundo saturado pela presença de Donald Trump.
Seu nome, seus bonés vermelhos, sua imagem — tudo está por toda parte.
Seus apoiadores fazem fila para tirar fotos com sósias que ostentam seu penteado característico; alguns exibem tênis e relógios com a marca Trump.
Em 2021, uma estátua dourada do presidente norte-americano foi levada para dentro da CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora).
O artista Jon McNaughton conquistou admiradores com representações surreais de Trump — como Atlas carregando o mundo, como um boxeador nocauteando Joe Biden ou como a quinta face no Monte Rushmore.
Seu trabalho tornou-se popular entre os apoiadores de Trump e chegou a chamar a atenção do próprio presidente.
Agora, McNaughton começa a refletir sobre o que significará retratar Donald Trump não mais como o presidente em exercício, mas como uma figura histórica.
"Para mim, Trump se tornará cada vez mais um arquétipo em pinturas futuras, assim como uso Washington, Lincoln, Kennedy ou Reagan para contar diferentes partes da história americana", disse McNaughton à CNN por e-mail. “Trump representa restauração e ruptura — às vezes, simultaneamente. O público, agora e no futuro, pode decidir por si mesmo o que essas ideias significam.”
Trump pensa em seu legado
O próprio Trump tem demonstrado estar ciente de que o tempo está passando.
Recentemente, ele disse à "New York Magazine" que sua onda de obras em Washington é motivada, em parte, pelo desejo de deixar uma marca duradoura na capital, pois "ninguém fará isso depois que eu partir".
Em um evento no mês passado, realizado em um centro de testes da General Motors, ele imaginou-se em casa, após deixar o cargo, vendo um sucessor receber os créditos à medida que fábricas — cujas obras começaram durante sua presidência — entrassem em operação.
"Por favor, vocês vão se lembrar de que fui eu quem fez isso?", perguntou Trump à multidão.
Seus assessores sabem há muito tempo que Trump deixará de ser o centro das atenções do partido à medida que 2028 se aproxima.
O presidente tem consultado assessores, em particular, sobre como lidar com esse período e evitar as armadilhas que acompanham a fase final de um mandato presidencial, segundo autoridades da Casa Branca.
"É por isso que ele tem estado tão focado em seu legado", disse uma das autoridades.
Não que alguém espere que Trump desapareça silenciosamente da política republicana.
Espera-se que ele desempenhe um papel decisivo na escolha de seu sucessor, seja o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio ou outra pessoa.
Além disso, um presidente que transformou a celebração dos 250 anos dos EUA em um comício típico de Trump — e que criou do nada uma convenção de meio de mandato — poderia encontrar muitos outros motivos para reunir os republicanos antes ou depois de deixar o cargo.
"Se Trump é diferente de todos os presidentes que já tivemos, achar que ele será apenas um presidente em fim de mandato comum é pura ilusão", disse Doug Heye, um veterano estrategista do Partido Republicano.
Sean Spicer, o primeiro secretário de imprensa de Trump na Casa Branca, disse que não se surpreenderia se os republicanos continuassem encontrando maneiras de realizar eventos com Trump para manter a base engajada.
"Ninguém consegue atrair multidões como Trump", disse Spicer. "Se você conseguir fazer com que ele continue realizando esses eventos, isso é algo enorme."
No entanto, o calendário político imporá mudanças que nem mesmo Trump poderá evitar.
Após as eleições de meio de mandato, os republicanos que nutrem ambições presidenciais começarão a se posicionar, forçando o partido a refletir sobre o futuro do movimento de Trump e os rumos do Partido Republicano após sua saída.
A próxima Convenção Nacional Republicana será a primeira desde 2012 em que se espera que alguém que não seja Trump aceite a indicação do partido.
O futuro do Partido Republicano pós-Trump
Já houve vislumbres de como isso poderia ser.
Pela primeira vez em uma década, Trump não compareceu à CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora) deste ano, também realizada em Dallas.
Schlapp, cuja organização realiza a CPAC, disse que a ausência de Trump inicialmente decepcionou os participantes, mas acabou lhe dando uma noção de como seriam os eventos conservadores e o ativismo de base quando Trump não fosse mais presidente.
“Muitas outras dinâmicas puderam ocorrer — coisas que não aconteciam quando ele estava presente, justamente por ele ser uma figura tão imponente e dominante”, disse Schlapp.
Enquanto isso, Trump tem apresentado as eleições de meio de mandato como um ultimato para autoridades e eleitores republicanos: ou se unem em torno de sua presidência, ou assistem aos democratas destruí-la.
Os primeiros anúncios de sua operação política destacam a ele próprio — “a pessoa mais durona e resiliente”, como diz o narrador.
Nenhum outro republicano é mencionado.
Espera-se que ele passe as próximas oito semanas viajando pelo país, com mais de 30 comícios planejados em estados e distritos decisivos.
A MAGA Inc., um "super PAC" alinhado a Trump, dispunha de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2 bilhões) no mês passado, e o presidente deixou claro que supervisionará como esse dinheiro será gasto.
No início deste mês, o grupo divulgou a compra de US$ 10 milhões (R$ 50,8 milhões) em espaço publicitário para apoiar Ken Paxton, candidato ao Senado pelo Texas.
Essa estratégia servirá de teste para saber se os eleitores que o apoiaram fielmente em suas eleições — e que abraçaram a transformação que ele impôs ao partido — também comparecerão para apoiá-lo quando ele não estiver concorrendo a nenhum cargo.
É uma aposta que não deixa de oferecer riscos, uma vez que sua popularidade continua estagnada.
Sua taxa de aprovação está em 35% — patamar próximo ao registrado no mesmo período de seu primeiro mandato e significativamente inferior à média histórica da maioria dos presidentes.
O presidente do Partido Republicano, Joe Gruters, disse à CNN que Trump “transformou completamente o que é o Partido Republicano” e que, independentemente do resultado em novembro, ele espera que o presidente continue sendo uma figura central por muito tempo.
Independentemente do que indiquem as pesquisas, Gruters argumentou que o apoio dos republicanos a Trump permanece sólido, e que essa força será explorada tanto em Dallas quanto ao longo de todo o outono.
“Quando você está na parte baixa da nona entrada, com corredores em base e em desvantagem no placar, você quer que o seu melhor rebatedor entre em ação”, disse Gruters, “e, para nós, esse é o presidente dos Estados Unidos.”