Análise: Setor privado não queria reciprocidade por parte do Brasil
Governo brasileiro notificará Washington após tarifas de 25% aplicadas em julho; o analista de Política da CNN Caio Junqueira comenta o tema
O governo brasileiro anunciou, nesta quinta-feira (13), o início formal do processo de reciprocidade contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. O analista de Política da CNN Caio Junqueira comenta o tema o CNN Prime Time.
A medida foi comunicada por meio de nota divulgada pelo governo, que informou ainda que o Ministério das Relações Exteriores notificará Washington sobre o início do processo.
Em 22 de julho, os EUA aplicaram uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. O governo brasileiro classificou as tarifas como injustificadas e arbitrárias e afirmou que continuará defendendo sua posição.
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A nota divulgada pelo governo não detalha quais seriam as medidas concretas de reciprocidade, mas esclarece que, antes de qualquer decisão, o Brasil abriu um processo de consulta ao governo norte-americano.
As eventuais medidas de reciprocidade seguirão os procedimentos estabelecidos pela lei de reciprocidade, aprovada pelo Congresso em 2025. O governo afirmou ainda que os setores afetados pelas tarifas continuarão protegidos pelo programa Brasil Soberano, com foco na preservação do emprego e da capacidade produtiva nacional.
Segundo a repórter Carol Rosito, que acompanhava a movimentação no Palácio da Alvorada, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, estiveram no local pouco antes do anúncio, mas deixaram o palácio sem se pronunciar aos jornalistas.
A nota do governo ressalta que essa semana os EUA sinalizaram estar dispostos a dialogar, o que abre espaço para as consultas diplomáticas que se iniciam agora.
Setor privado temia consequências da reciprocidade
Para o analista Caio Junqueira, interlocutores do setor privado não queriam que o governo adotasse a reciprocidade como resposta ao tarifaço. Segundo ele, o processo é lento, passível de revisão a qualquer momento, e há receios consideráveis sobre seus efeitos.
"O único país que foi bem-sucedido na aplicação da reciprocidade foi a China, porque tem tamanho para isso", afirmou Caio Junqueira, acrescentando que todos os outros países que ameaçaram algum tipo de retaliação "se deram mal", citando o Canadá como caso clássico.
O analista destacou ainda que países como União Europeia, Japão e Reino Unido optaram pela negociação direta e obtiveram resultados mais favoráveis.
Outro ponto levantado por Caio Junqueira é que setores exportadores brasileiros vinham conduzindo uma diplomacia comercial diretamente em Washington, tentando negociar exceções ao tarifaço, e que o processo de reciprocidade pode atrapalhar essas tratativas.
Por fim, ele alertou para a imprevisibilidade de Donald Trump: "O Donald Trump pode olhar esse processo de reciprocidade, pode ignorar ou pode escalar", disse, advertindo que uma eventual escalada poderia ter "efeitos e impactos econômicos prejudiciais para a economia brasileira e, ao fim e ao cabo, para o bolso do cidadão brasileiro também".