Análise: Os desafios para as democracias na América Latina

Cientista político e colaborador do CEPE-MB Maurício Santoro analisa ao WW crises democráticas na região, do autoritarismo na Nicarágua à influência do governo Trump

Análise: Os desafios para as democracias na América Latina
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Análise: Os desafios para as democracias na América Latina

Cientista político e colaborador do CEPE-MB Maurício Santoro analisa ao WW crises democráticas na região, do autoritarismo na Nicarágua à influência do governo Trump

Novos movimentos de dirigentes políticos na América Latina acendem alertas sobre o respeito ao mínimo de convivência democrática na região. A maioria dos episódios envolve ataques a direitos eleitorais e à própria institucionalidade dos regimes, em países que vão da esquerda à direita do espectro político.

O caso mais recente veio da Nicarágua. Daniel Ortega, que está à frente do país desde 2008, anunciou o fim das eleições, medida que foi recebida com aplauso de apoiadores.

O episódio gerou repúdio dos Estados Unidos: Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, afirmou que Ortega abandonou até mesmo a pretensão de um consenso popular e pediu apoio da comunidade internacional para demonstrar à ditadura que ela não manterá relações normais no hemisfério.

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Autoritarismo de esquerda e de direita

O fenômeno não se limita à esquerda. Em El Salvador, Nayib Bukele conseguiu que o Congresso alterasse a lei para permitir que ele dispute um terceiro mandato, algo que até então não era permitido.

Caso vença, permanecerá no cargo até 2033. O grupo governista controla praticamente todas as instituições do país, incluindo as eleitorais e a mais alta instância da Justiça.

Mesmo em países com processos eleitorais considerados livres, candidatos derrotados têm alegado fraude: Gustavo Petro, na Colômbia, e Roberto Sanches, no Peru, fizeram acusações de irregularidades, embora institutos internacionais apontem para processos legais em ambos os casos.

Para o cientista político e colaborador do CEPE-MB (Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha) Maurício Santoro, ao WW, o cenário reflete uma crise global. "Nós temos hoje uma crise global da democracia, nas Américas, na Europa. O que nós estamos vendo nos Estados Unidos, em termos do comportamento do governo Donald Trump, é muito preocupante por diversos aspectos", afirmou.

No que diz respeito à América Latina, Santoro destacou que países como Nicarágua, Venezuela e Cuba vivem uma agonia muito longa de processos democráticos.

"As declarações do Ortega no último domingo (19) são simplesmente o episódio mais recente de uma série de decisões muito autoritárias. Ele está há quase 20 anos na presidência e, ao longo desse período, foi erodindo, pouco a pouco, as liberdades civis e políticas da Nicarágua", disse.

Omissão dos líderes democráticos

Maurício Santoro também chamou atenção para a ausência de críticas públicas por parte de líderes democráticos da região. "Nós não vemos, por parte de líderes democráticos da América Latina, uma crítica ao que acontece na Nicarágua", observou.

Segundo ele, o Brasil poderia ter um papel mais ativo na pressão por um retorno da democracia no país e pela libertação dos presos políticos, inclusive em razão da relação histórica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ortega. "Eles são amigos desde os anos 70, uma amizade que antecede a fundação do próprio Partido dos Trabalhadores no Brasil", ressaltou.

O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna destacou que a verdadeira divisão não é entre esquerda e direita, mas entre quem defende a democracia e quem defende o autoritarismo.

"Se a gente olha para a história da América Latina, desde as independências, tem se alternado ditaduras de esquerda e de direita. O que você tem que diferenciar é quem aceita a alternância de poder e quem não aceita", afirmou. O Uruguai foi citado como exceção positiva, com governos mais moderados que escaparam desse dualismo.

A influência do governo Trump

No período pós-pandemia, a América Latina tem apresentado uma guinada na eleição de governos conservadores, em maior ou menor grau alinhados com os Estados Unidos. Santoro avaliou que o Brasil, com o favoritismo de Lula para a reeleição, representa uma exceção dentro dessa corrente mais ampla.

Sobre a Nicarágua especificamente, o cientista político destacou que o país é particularmente vulnerável às pressões do governo Trump por depender economicamente do mercado americano — tanto pelas exportações quanto pelas remessas de migrantes nicaraguenses nos Estados Unidos.

Santoro também apontou que os Estados Unidos retomaram, desde o início do ano, uma agenda intervencionista na região, com ações na Venezuela e pressões políticas e econômicas sobre Cuba.

"Nós estamos ainda no meio de um processo muito turbulento pelo qual os Estados Unidos estão tentando redesenhar esse mapa político na América Latina, não só nessa questão de direita e esquerda, mas também numa questão de disputas com a China e, em menor grau, com a Rússia na região", concluiu.

Apesar do cenário preocupante, o Democracy Index de 2025 da revista britânica The Economist aponta que o panorama democrático melhorou no continente depois de nove anos, impulsionado principalmente pelas eleições na Bolívia, vistas como um avanço democrático.

Os textos gerados por inteligência artificial na CNN Brasil são feitos com base nos cortes de vídeos dos jornais de sua programação. Todas as informações são apuradas e checadas por jornalistas. O texto final também passa pela revisão da equipe de jornalismo da CNNClique aqui para saber mais.


Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-os-desafios-para-as-democracias-na-america-latina/