Análise: Após apagões, cubanos estão chegando ao limite de resistência

Eletricidade, água e combustível são luxos escassos, e a população enfrenta desafios e incertezas sem precedentes na ilha

Análise: Após apagões, cubanos estão chegando ao limite de resistência
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No intervalo entre o primeiro e o segundo apagão nacional que Cuba vivenciou em julho, eu estava na fila atrás de dois psicólogos que vestiam jalecos brancos e conversavam abertamente sobre seus pacientes.

“Não me preocupo com as pessoas que dizem estar estressadas”, disse um profissional ao outro enquanto esperava na fila pela comida que chegava semanalmente de caminhão, vinda do campo. “O problema são as pessoas que dizem estar bem. Há algo realmente errado com elas.”

A rede elétrica de Cuba sofreu uma nova falha nesta terça-feira (14), a terceira neste mês, deixando quase dez milhões de cubanos no escuro e mergulhados em uma incerteza ainda maior. A ansiedade em relação ao futuro está atingindo níveis sem precedentes por aqui.

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À medida que a economia da ilha governada pelos comunistas entra em colapso e o governo Trump impõe sanções cada vez mais severas, a Revolução Cubana parece estar dando seus últimos suspiros.

Mas, se aprendi alguma coisa em quase 15 anos vivendo em Havana, foi o quanto os cubanos conseguem suportar e o quão eficaz o governo é em manter o controle.

Bandeira nacional de Cuba, estendida em varanda de casa em Havana em 15 de fevereiro de 2026 • REUTERS/Norlys Perez

A vida, que nunca foi fácil para a maioria dos cubanos, tornou-se extremamente difícil. Eletricidade, água e combustível são luxos cada vez mais escassos hoje em dia, e é quase impensável ter os três ao mesmo tempo.

Após o segundo apagão nacional, meu bairro em Havana ficou 36 horas sem eletricidade. Finalmente, às 4h da manhã de domingo, fui acordado pelas luzes da casa ao lado, que estava iluminada como se fosse véspera de Natal.

Naquele súbito clarão, eu via meus vizinhos correndo, no meio da noite, para lavar roupa, cozinhar e carregar tudo o que podiam durante aquelas poucas e preciosas horas de eletricidade.

Na manhã seguinte, novamente durante um apagão, conversei com meu vizinho Jorge, que ajuda a mim e a várias pessoas do quarteirão a transformar pequenos trechos de gramado em frente às nossas casas em hortas, para cumprir uma determinação governamental que exige que a população cultive o próprio alimento.

Eu estava empolgado com o nosso breve retorno ao século 20. “Tivemos quatro horas de eletricidade ininterrupta”, disse ele. “Quando foi a última vez que isso aconteceu?”

A incerteza está mexendo com a cabeça de todo mundo. Ninguém sabe quando a luz vai acabar ou por quanto tempo. Ás veze, ela volta depois de um apagão que durou o dia todo, apenas para cair novamente em questão de minutos, e o bairro inteiro solta um ganido coletivo e audível.

Todas as pessoas que conheço parecem exaustas.

O governo mantém um canal no WhatsApp para informar aos moradores há quanto tempo estão sem energia elétrica. Já não é incomum ver apagões que duram mais de 30 horas.

Se a luz volta, mesmo que apenas por alguns minutos, o contator é zerado. Ao perceberem que estão sendo enganados, os cubanos respondem ao governo no chat com emojis como a bandeira dos Estados Unidos.

Alguns recorreram a bater panelas à noite, mas ainda não há protestos organizados em um país onde o governo encara a dissidência como uma forma mal disfarçada de traição.

Um momento decisivo

Moradores de Cuba enfrentam 3º apagão seguido • Ramon Espinosa/AP via CNN Newsource

Cada vez mais cubanos percebem que estão vivendo um momento decisivo na história da ilha, um enredo repleto de altos e baixos, e que novos tremores podem estar por vir.

Todas as manhãs, na televisão estatal cubana, um apresentador precisa prever o déficit diário de eletricidade, tal como os telejornais de outros países informam sobre a previsão do tempo ou o trânsito.

Com a chegada dos meses mais quentes do verão e o aumento da demanda de energia necessária para enfrentar as temperaturas sufocantes, o déficit se agrava.

“As soluções para a crise energética de Cuba não podem mais vir de dentro do país; têm de vir de fora”, disse à CNN Jorge Piñón, pesquisador sênior de energia da Universidade do Texas em Austin.

Além do bloqueio imposto pelo governo Trump às remessas de petróleo, o setor energético de Cuba está paralisado por décadas de falta de investimento estatal em suas usinas envelhecidas, um problema sem solução simples, segundo Piñón.

“Cuba produz petróleo suficiente por conta própria”, disse Piñón. “Mas, a qualquer momento, metade das usinas termelétricas está fora de operação para manutenção”.

Não há sinais de que a ajuda esteja a caminho. A captura, pelos Estados Unidos, do presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, custou a Cuba um aliado fundamental que detinha as maiores reservas de petróleo do mundo.

A Rússia está cada vez mais preocupada com sua guerra na Ucrânia e não pode enviar mais ajuda a uma ilha que já deve bilhões de dólares à sua antiga aliada da Guerra Fria. O México, por enquanto, está cedendo às ameaças do governo Trump, por receio de sanções econômicas dos EUA.

O governo americano afirma que a campanha visa pressionar autoridades de alto escalão, e não os cubanos comuns. Mas há poucos sinais de que aqueles no topo estejam sendo forçados a cortar seus gastos.

Em uma entrevista concedida ao jornal americano USA Today em julho, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto e chefe de segurança do ex-presidente cubano Raúl Castro, exibiu uma corrente de ouro, marcas de luxo e acesso a um estilo de vida de elite inimaginável para a maioria dos cubanos.

Cuba sofre segundo apagão em uma semana • Reuters

Castro, a quem Cuba apontou como o interlocutor da ilha nas negociações em curso com o governo dos Estados Unidos, apesar de não ocupar nenhum cargo de alto escalão no governo, lamentou que a maioria dos cubanos não compartilhe os privilégios decorrentes de sua linhagem.

Os cubanos que conheço ficaram escandalizados com os comentários dele, vistos como descarados em um momento em que seu padrão de vida, já precário, está despencando.

“É como se eles não soubessem como vivemos, como nossos salários estão cada vez mais perto de não valer nada”, me disse recentemente um amigo cubano chamado Homero, durante o almoço.

Ciente de quão pouco Homero ganhava em seu emprego no governo, convidei-o para o restaurante mais simples que consegui imaginar.

Mas, enquanto olhávamos os cardápios, Homero soltou um suspiro profundo, e percebi que não tinha conseguido deixá-lo à vontade. Cada prato do cardápio, ele me disse, custava mais do que ele ganhava por mês na época.

 



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-apos-apagoes-cubanos-estao-chegando-ao-limite-de-resistencia/