O avanço da tokenização de ativos reais pode abrir uma nova fronteira para o financiamento do agronegócio brasileiro ao permitir que características produtivas e ambientais de propriedades rurais sejam traduzidas em informações capazes de chegar ao mercado financeiro.
Para Sergio Rocha, CEO da Agrotools, o potencial está justamente em transformar o território rural em uma espécie de ativo financeiro mais facilmente compreensível por bancos, fundos e investidores. Segundo o gestor, uma parcela relevante do patrimônio existente nas áreas produtivas brasileiras ainda não é plenamente utilizada como instrumento de alavancagem de crédito.
“O acesso de utilização do ativo produtivo, que é a capacidade de um pedaço de terra, de uma fazenda, de uma grande área ou uma pequena área se tornar monetizado e, com isso, virar capital para suprir a necessidade de capital do setor, isso é algo ainda muito difícil e com processos muito complexos”, disse à CNN Brasil.
Recomendado para você
MPF investiga DSEI Yanomami por irregularidades em tratamento para 'bicho-de-pé'
Mão de criança yanomami com tungíase. Foto tirada em janeiro d...
2026-09-04 06:00:04Aérea japonesa faz novo pedido e eleva para 23 encomenda de aeronaves da Embraer
Jatos E-190-E2 da Embraer operam desde 2009 no Japão Divulgaçã...
2026-09-04 05:56:43Mesmo após 6 anos do Pix, 30 dos 41 postos da SPTrans só aceitam dinheiro vivo para emitir 2ª via do Bilhete Único
Usuário do bilhete único na cidade de São Paulo Tiago Queiroz/...
2026-09-04 05:00:00A lógica, segundo Rocha, é semelhante à evolução observada no mercado imobiliário urbano, que ganhou novos mecanismos de financiamento ao longo das últimas décadas. No campo, a tokenização poderia ajudar a traduzir não apenas a terra, mas também aquilo que ela é capaz de gerar, como soja, milho, trigo, madeira e produção pecuária, para uma linguagem mais próxima à do mercado de capitais.
Ativos ambientais
O potencial não se limita à produção agrícola. Áreas de vegetação nativa, restauração e outros ativos ambientais também podem ganhar relevância nesse processo.
A Agrotools aposta que propriedades rurais brasileiras concentram, além de áreas produtivas, recursos hídricos, vegetação nativa, potencial de geração de créditos de carbono, biodiversidade e áreas que podem ser destinadas à restauração.
Nesse cenário, a tokenização poderia permitir que ativos reais e ambientais mensuráveis e auditáveis fossem representados digitalmente e, dependendo da estrutura financeira adotada, conectados a instrumentos de investimento e financiamento.
Entre os exemplos estão créditos de carbono, projetos de restauração e ativos relacionados à geração de energia renovável. O ponto central, porém, é que a tecnologia, sozinha, não garante valor ao ativo.
“Não adianta só criar um token. O token é uma parte dessa história. Ele tem que ser um token com um bom lastro”, disse Rocha.
Inteligência territorial ganha importância
É justamente nesse ponto que entra a inteligência territorial. Para que uma área rural ou um ativo ambiental possa ser utilizado em uma operação financeira, é necessário comprovar o que existe naquele território, sua localização, características, histórico e riscos associados.
Bancos, seguradoras, tradings e empresas compradoras passaram a depender cada vez mais de informações sobre regularidade ambiental, histórico de uso do solo, riscos climáticos e características produtivas das propriedades.
O cruzamento desses dados permite construir uma avaliação mais abrangente do risco de uma operação. Informações de sensoriamento remoto, registros ambientais, dados climáticos, histórico de uso da terra e informações financeiras e de mercado podem ser combinadas para produzir uma visão mais precisa sobre determinada propriedade ou cadeia de fornecimento.
Para Rocha, não basta analisar isoladamente a situação ambiental de uma fazenda. Também é preciso compreender como fatores como solo, clima e regime de chuvas podem afetar a capacidade produtiva e, consequentemente, o risco financeiro daquela operação. “Quando a avaliação das características do território é feita de maneira assertiva e com qualidade de dados, é possível acessar um crédito mais adequado”, afirmou.
Crédito mais caro aumenta pressão por novas ferramentas
A discussão ocorre em um momento de maior pressão sobre o financiamento do agronegócio. O setor convive com cerca de R$ 180 bilhões em endividamento e juros entre 18% e 20% ao ano, além de gargalos históricos de infraestrutura e escoamento.
Ao mesmo tempo, as exigências ambientais e de rastreabilidade aumentam. A regulamentação europeia antidesmatamento, por exemplo, amplia a necessidade de comprovação da origem das commodities exportadas, enquanto regras do CMN (Conselho Monetário Nacional) aumentam a importância da regularidade ambiental no acesso ao crédito rural.
Nesse ambiente, a informação territorial deixa de ser apenas uma ferramenta de conformidade e passa a ter potencial para influenciar diretamente o custo e a disponibilidade do capital. A Agrotools aposta em tecnologias capazes de transmitir as informações necessárias para capitalizar sobre ativos rurais.
Sustentabilidade como atributo financeiro
Na avaliação de Rocha, a sustentabilidade também deixou de ser apenas uma exigência regulatória para se tornar um atributo capaz de diferenciar produtos brasileiros no mercado internacional.
O CEO destaca a soja brasileira como exemplo. Segundo ele, a commodity pode carregar, além do próprio valor comercial, informações relacionadas à sustentabilidade, carbono e boas práticas de produção.
Essa camada adicional de informação pode ajudar a diferenciar produtos e cadeias produtivas brasileiras e, ao mesmo tempo, oferecer aos agentes financeiros uma visão mais completa dos riscos envolvidos.
IA acelera análise dos territórios
A evolução da inteligência artificial também pode ampliar esse processo. A Agrotools atua há duas décadas no desenvolvimento de tecnologias voltadas à tradução de informações territoriais para diferentes participantes do agronegócio, como tradings, frigoríficos, bancos e fundos de investimento.
Segundo Rocha, a combinação de inteligência artificial, dados de geomática e modelagens permite analisar de maneira mais dinâmica as transformações ocorridas no território e relacioná-las ao resultado econômico da produção.
A empresa aposta no uso de IA para acelerar o cruzamento de grandes volumes de informações territoriais, climáticas, ambientais, mercadológicas e financeiras.
A principal mudança, portanto, não estaria apenas no uso da tecnologia para aumentar a produtividade da lavoura, mas na capacidade de transformar o território em uma fonte de informação financeira.
Drex e o movimento global de tokenização
No Brasil, o debate sobre tokenização ganhou espaço com a digitalização do sistema financeiro e iniciativas associadas ao Drex, moeda digital desenvolvida pelo Banco Central.
Para Rocha, porém, um dos principais movimentos a serem acompanhados está nos Estados Unidos. O executivo cita o chamado Genius Act, aprovado em 2025, como um marco regulatório que, em sua avaliação, pode influenciar o desenvolvimento global do mercado de tokenização.
A avaliação é que o Brasil poderia aproveitar esse movimento para desenvolver estruturas capazes de representar ativos do agronegócio e conectá-los a novas formas de financiamento.
O desafio, entretanto, permanece na construção de confiança. Um ativo digital só pode ter valor financeiro se houver segurança sobre o que ele representa. No caso de ativos ambientais, isso envolve comprovar existência, localização, integridade, titularidade e, quando aplicável, adicionalidade e ausência de dupla contagem.
Para o agro brasileiro, a oportunidade está justamente na combinação de território, dados, sustentabilidade e capital, elementos essenciais para o avanço da digitalização e capitalização no campo. “Esse momento representa uma nova oportunidade para o país, uma oportunidade para as empresas e produtores”, concluiu Rocha.