A IA está aumentando os preços nos EUA – e não apenas nas contas de luz.
Grandes inovações tecnológicas têm o potencial de transformar economias ao criar oportunidades, empregos e até novas indústrias, impulsionando a produtividade e o crescimento. No entanto, essa promessa de ganhos a longo prazo costuma ser precedida por dores de curto e médio prazo.
No caso da inteligência artificial, isso tem incluído perda de postos de trabalho, crescimento salarial mais lento, ampliação da desigualdade social e, especialmente nos últimos meses, uma inflação mais alta.
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2026-08-03 15:22:30Dados recentes mostram que o interesse e os investimentos astronômicos na adoção da IA (estimados em cerca de US$ 750 bilhões apenas para este ano) empurraram diversos preços para cima, elevando a inflação geral no processo.
“Essa inflação mais alta significa que as famílias precisam gastar pouco mais de US$ 375 a mais para comprar os mesmos bens e serviços que compravam nesta mesma época no ano passado, devido ao impacto inflacionário da IA”, escreveu Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics, em um e-mail para a CNN.
A boa notícia: a IA ainda é uma contribuição menor para a inflação geral (estimada em 0,2 ponto percentual), e os impactos estão atualmente limitados a poucas categorias.
A notícia não é tão boa: a IA está pressionando a inflação para cima e complicando ainda mais os velhos problemas de custo de vida. Além disso, não se espera que essas pressões sobre os preços desapareçam tão cedo — e elas podem muito bem se espalhar.
Essa dinâmica potencial deixou os dirigentes do Federal Reserve (o Banco Central americano), incluindo o novo presidente da instituição, em alerta.
Veja a seguir onde a IA já apareceu na inflação e onde ela pode dar as caras em seguida.
Energia elétrica
Os data centers de IA têm um apetite voraz por energia (notadamente eletricidade e água), e a expansão acelerada desses gigantes ameaça sobrecarregar as redes elétricas e encarecer ainda mais os preços.
Isso acontece em grande parte porque a demanda está superando a oferta.
As instalações de data centers podem ser construídas ou expandidas a um ritmo duas ou três vezes mais rápido do que os novos sistemas de geração de energia necessários para abastecê-los, destacou recentemente a PJM Interconnection, a maior operadora de rede elétrica dos EUA.
Junte essas necessidades ao fechamento de usinas a carvão, ao aumento da demanda por eletrificação, a eventos climáticos extremos e a uma infraestrutura envelhecida, e o fosso entre oferta e demanda se alarga ainda mais.
“Os data centers estão exigindo volumes colossais de energia, o que tende a espremer a eletricidade disponível para os moradores. Isso também fez os preços no mercado atacadista dispararem, já que os data centers estão dispostos a pagar o valor que os fornecedores pedem, e isso acaba aumentando também os custos da conta de luz residencial”, disse à CNN Pooja Sriram, economista do Barclays nos EUA.
Dados do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA mostram que as tarifas de energia residencial subiram cerca de duas vezes mais rápido em 2025 na comparação com a média dos anos anteriores, observou ela.
E, nos primeiros cinco meses deste ano, os preços da energia subiram a um ritmo ainda mais veloz do que em 2025, mostram os dados do Bureau of Labor Statistics (BLS).
“Acho que essa é uma das marcas mais claras da demanda por data centers de IA, encarecendo a energia para os consumidores”, disse ela.
Os preços da eletricidade caíram inesperadamente 1% em junho, mas continuam avançando acima da inflação geral e acumulam alta de 4% na comparação anual, mostram os dados mais recentes do CPI.
Chips de memória
No entanto, o apetite dos data centers não é saciado apenas com energia. As grandes construções também geraram um boom na demanda por chips de memória, o que beneficiou bastante os fabricantes, disse Sriram.
“A questão não é apenas a demanda; o problema é que o lado da oferta desses chips de memória está muito gargalado”, afirmou.
Trilhões de dólares em busca de componentes ligados à IA fazem com que os fornecedores de armazenamento e memória priorizem sua capacidade de fabricação de pastilhas de silício para produtos de memória de alta largura de banda e altíssima velocidade (e altamente lucrativos), exigidos pelos data centers, explicou ela.
“Na prática, isso desviou a produção dos chips de memória usados em produtos de consumo em massa para chips de alto desempenho superespecíficos de que os data centers precisam”, disse.
A pressão nos preços desses e de outros componentes ficou mais evidente no nível do produtor. O gráfico do Índice de Preços ao Produtor (PPI) para a indústria de semicondutores e componentes eletrônicos parece um taco de hóquei (com uma subida íngreme).
Até junho, os preços no atacado dessa categoria acumulavam alta de 26% em relação ao ano anterior — uma mudança drástica na comparação com junho de 2025, quando os preços caíam 0,8% no ritmo anual, segundo dados do PPI.
“O motivo pelo qual isso importa para o consumidor final é que, no fim das contas, nossos notebooks, computadores, iPhones e iPads têm algum tipo de chip de memória dentro do aparelho, e esses chips ficaram bem caros”, pontuou.
Hardware e software de informática
No final do mês passado, a Apple reajustou os preços de alguns de seus produtos mais populares em cerca de 20%. Em nota, a empresa justificou que os data centers de IA provocaram uma “explosão extraordinária” na demanda por memória e armazenamento.
A Sony aumentou o preço do PlayStation no início do ano e, no mês passado, a Microsoft subiu o valor dos consoles Xbox em cerca de 25% por motivos semelhantes.
“Toda a indústria de eletrônicos de consumo está enfrentando a atual crise de componentes, mas os efeitos são particularmente severos para os consoles de videogame”, escreveu a Microsoft em comunicado.
Computadores e equipamentos relacionados costumam ser uma categoria altamente deflacionária no CPI: por conta dos avanços tecnológicos, o consumidor costuma levar “mais por menos”. (Por exemplo, um computador de US$ 1.500 em 2025 era provavelmente mais potente do que um modelo de US$ 1.500 do ano anterior e, por isso, o órgão de estatísticas trata isso como uma queda de preço).
No primeiro semestre de 2026, no entanto, computadores e periféricos registraram inflação de preços, mostram os dados do BLS.
“Estamos nas rodadas iniciais dessas pressões nos preços ao consumidor e do repasse de custos vindos de preços mais altos ao produtor, preços de importação mais elevados e maior demanda, especialmente pelos investimentos puxados pela IA”, disse Gregory Daco, economista-chefe da EY-Parthenon.
A inclusão de recursos de IA em aplicativos empresariais também afeta o preço dos softwares. A Microsoft, por exemplo, aumentou os preços do Office 365 pessoal em 43% em fevereiro (30% para o plano familiar) após manter os valores congelados por uma década. A nova ferramenta responsável pela alta: o Copilot, o novo assistente de IA da empresa.
Custos de construção e salários
Os data centers também estão impactando a oferta de outros insumos essenciais da construção civil, como cobre e fiação elétrica, além da mão de obra.
“Se você procura dados conclusivos (sobre o efeito da IA na economia e na inflação), ainda que um pouco mais sutis, o caminho é olhar se os salários na construção civil estão subindo mais do que no restante da economia”, disse Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e juros do Macquarie Group.
“Porque, se de fato houver uma pressão altista sobrecarregando os recursos da economia por conta da construção de data centers de IA, você verá isso também nos salários — especificamente nos salários dos trabalhadores alocados nesses projetos”, acrescentou.
Até agora, os dados salariais disponíveis em âmbito nacional mostram uma “divergência consistente” entre o setor de construção e a média da economia, observou ele.
Dados regionais podem ser ainda mais reveladores, disse ele, destacando a importância de monitorar os salários da construção em áreas com alta concentração de data centers. (Isso exigirá um pouco mais de paciência, contudo, já que os dados locais demoram mais para serem coletados e modelados).
“Estamos enfrentando um problema com moradia no país atualmente; as pessoas dizem que está inacessível”, disse Wizman. “Pode ser o caso de que o aumento expressivo nos salários da construção civil esteja pressionando também o preço das casas.”
*David Goldman, da CNN, contribuiu com esta reportagem